Num dia bom, por volta das dez da manhã, o sol já aqueceu o planalto da Cabranosa e o ar começa a subir em colunas invisíveis. Com ele surgem as primeiras silhuetas largas e escuras: um grifo, depois outro, depois uma espiral inteira a ganhar altura antes de seguir para leste ao longo da costa. Ninguém precisa de te explicar o que fazer, basta olhares para cima e teres paciência. É isto que acontece todos os outonos na ponta sudoeste do Algarve. Por causa disto, o Festival de Observação de Aves e Atividades de Natureza de Sagres, que os organizadores apresentam como o maior evento de natureza do país, reúne mais de 300 atividades na 17.ª edição, de 2 a 5 de outubro. Só que o festival é a montra, não o espetáculo: segundo o diretor executivo da SPEA, as aves vão continuar a passar por aqui durante mais um ou dois meses, e para as ver não é preciso inscrição nenhuma.
Porque é que as aves vão parar a Sagres
Boa parte das aves que passam por Sagres nunca fez esta viagem antes.
Quem trabalha com elas, na Almargem e na SPEA, repete que o que mais se vê nas grandes passagens são juvenis e aves imaturas. Muitas vêm do norte da Alemanha, dos Países Baixos, do Reino Unido ou da Polónia, onde nidificaram, e fazem agora a viagem para África, algumas pela primeira vez. A rota mais curta para o outro lado passa pelo Estreito de Gibraltar, mas acredita-se que as mais novas, que ainda não conhecem o atalho, descem a linha da costa atlântica até esbarrarem com o fim da terra firme. Uma segunda explicação deu a Sagres o nome de «planície das aves perdidas»: segundo ela, os ventos de leste empurram os juvenis para fora da rota principal e deixam-nos aqui, meio desorientados. Nenhuma das duas teorias está fechada, e nada impede que ambas contribuam. As planadoras, como os grifos, as águias e as cegonhas, dependem de correntes de ar quente que não se formam sobre o mar, por isso seguem a costa e acumulam-se na ponta à espera de condições. Já os passeriformes, mais pequenos e mais afoitos, lançam-se muitas vezes diretamente sobre o Atlântico, com cerca de 400 quilómetros de água pela frente até à costa africana. O resultado, segundo o município de Vila do Bispo, são mais de 250 espécies registadas ao longo dos anos e, segundo a SPEA, mais de 4000 aves planadoras por ano, de todas as espécies com registo em Portugal.
O que se vê no ar, no mar e nos arbustos
No ar
O grifo é a planadora que aparece em maior número, sobretudo em outubro, com mais de dois metros de envergadura, cerca de dez quilos de peso e bandos que chegam às centenas. A águia-calçada vem logo a seguir, com pico de passagem entre a segunda quinzena de setembro e a primeira de outubro, e a águia-cobreira tem dois picos, na primeira metade de outubro e na primeira de novembro. O britango, também chamado abutre-do-Egito, é bem mais escasso: só algumas dezenas chegam a Sagres por ano, quase sempre jovens, em pequenos grupos de uma a cinco aves, entre setembro e meados de outubro. A cegonha-preta é rara mas regular, e qualquer silhueta negra de pescoço esticado merece uma segunda olhada pelos binóculos.
No mar
O cabo de São Vicente é o ponto de observação de aves marinhas por excelência. Na migração de outono é possível registar ali praticamente todas as espécies de aves marinhas que nidificam na Europa continental, e o município aconselha a ir nas primeiras horas de luz. A partir de meados de outubro passam alcatrazes aos milhares, já na sua maioria adultos, brancos, em vez dos juvenis escuros do início da época, com ritmos de passagem que podem chegar a alguns milhares por hora, segundo o município. A cagarra é abundante na primeira metade da época e já rara em novembro. A pardela-balear, classificada como criticamente em perigo, passa sobretudo em setembro e outubro.
Nos arbustos
Enquanto os olhos andam no céu, os matos e a sebe de pinheiros baixos no caminho para a Cabranosa estão cheios de aves pequenas a descansar. O papa-moscas-preto é um dos migradores mais comuns em setembro e outubro, o chasco-cinzento (que pode vir da Islândia ou da Gronelândia) aparece sobretudo nesses dois meses, e a SPEA acrescenta a felosa-musical e a alvéola-amarela entre as espécies mais numerosas. Em meados de outubro chega uma segunda vaga, desta vez de aves vindas do norte da Europa para passar o inverno, e é nessa altura que os prados se enchem de centenas de petinhas-dos-prados.
Onde apontar os binóculos e a que horas
O município de Vila do Bispo publica um mapa com sete pontos de observação. Para uma primeira visita bastam quatro; a Sebe, o Porto da Baleeira e o Martinhal, a única zona húmida permanente da península, ficam para quem já apanhou o gosto.
- Cabranosa, conhecida entre os observadores como «P1»: o ponto mais alto da península e o melhor lugar para águias e grifos. Chega-se pela estrada do cabo, virando para norte num caminho de terra batida logo depois do restaurante O Vigia.
- Cabo de São Vicente, para aves marinhas, de preferência ao nascer da luz.
- Ponta da Atalaia, abrigada do vento norte, onde as aves marinhas também passam e os matos escondem passeriformes: o plano B para dias de nortada forte.
- Vale Santo, planalto aberto com sisões o ano inteiro e, em migração, algumas espécies menos comuns como o borrelho-ruivo, entre outras.
O vento manda mais do que o calendário. Quando sopra de oeste, o melhor é ir ao cabo ver alcatrazes e cagarras; se virar para leste, as aves marinhas escasseiam, mas o vento de sueste empurra os passeriformes na tua direção e aumenta a probabilidade de uma raridade nos arbustos. Chuva, vento forte ou uma descida brusca de temperatura reduzem o movimento. É aqui que o romantismo do «fim do mundo» tropeça na realidade: num dia mau podes passar duas horas na Cabranosa a ver pouco mais do que mato e vento. A parte boa vem depois, porque quando o tempo abre as aves que ficaram «em fila de espera» arrancam quase todas ao mesmo tempo, e as hipóteses de ver algo fora do comum multiplicam-se.
Melhor opção para um dia só: o cabo ao amanhecer e a Cabranosa depois do pequeno-almoço. As rapinas precisam do calor do sol para planar e são das últimas a aparecer, por isso chegar lá às oito e concluir que o dia está perdido é o erro mais comum de quem vem pela primeira vez.
O festival, para quem nunca pegou em binóculos
A edição de 2026 tem mais de 300 atividades e mais de 60 guias, organizadas pela Câmara Municipal de Vila do Bispo, pela SPEA-BirdLife e pela Associação Almargem. A secretaria fica no Forte do Beliche, a meio caminho entre a vila de Sagres e o cabo. Há saídas de campo em terra e no mar, anilhagem científica, caminhadas na Via Algarviana, fotografia, atividades para crianças e estreias como a fotografia de borboletas noturnas e um safari sonoro. A espécie-símbolo deste ano é a torda-mergulheira (Alca torda), uma ave marinha do Atlântico Norte que chega às águas portuguesas no outono e no inverno, escolhida para chamar a atenção para a captura acidental em artes de pesca. As inscrições online já fecharam e muitas atividades, mesmo as pagas, esgotaram quase desde que abriram, mas a organização garante que sobram várias de participação livre e que é possível inscrever-se presencialmente no Forte do Beliche até 5 de outubro. Existe desde 2010 e este ano reforçou as sessões de iniciação, para famílias e para adultos. Sagres tem pouca oferta de alojamento e a semana do festival costuma encher, por isso Salema e Burgau, a quinze ou vinte minutos de carro, são alternativas mais calmas.
Fortaleza, farol e o resto do dia
Passada a hora das aves, sobra o património. A Fortaleza de Sagres custa 10 euros por adulto (o bilhete era de 3 euros até ao fim de 2024). Pagam 5 euros, com comprovativo, quem tem 65 anos ou mais, os jovens entre 13 e 24 anos e as famílias com pelo menos um menor, e os residentes em Portugal entram gratuitamente em 52 dias por ano, à escolha. De outubro a abril abre das 9h30 às 17h30, com última entrada meia hora antes, o que deixa a última luz do dia para o cabo.
O farol do cabo de São Vicente foi estabelecido em 1846 por ordem de D. Maria II, no sítio de um convento onde, a partir de 1515, os frades terão mantido uma luz para os navegantes, até Francis Drake o assaltar, em 1587, e destruir a torre. Em 1908 a torre foi alteada 5,70 metros e ganhou uma ótica hiper-radiante de 1330 milímetros de distância focal, a maior de todos os faróis portugueses, com um alcance de 32 milhas náuticas, cerca de 59 quilómetros. O Visit Algarve indica que está encerrado a visitas por tempo indeterminado, por razões operacionais, por isso confirma antes de contares com o interior; o cabo, esse, continua ali, ao ar livre. Quem preferir chegar a pé tem o Trilho dos Pescadores, da Rota Vicentina, que vem da costa alentejana até ao cabo de São Vicente.
Regras simples para não estragar o que se vem ver
O código de conduta do município para observadores cabe em duas ideias: o bem-estar das aves vem primeiro, e o habitat deve ficar exatamente como o encontraste. Não perturbes o comportamento das aves de forma nenhuma e, se contratares um guia, escolhe um licenciado e, de preferência, local. Leva camadas de roupa, porque o vento no promontório não perdoa mesmo num dia de sol, e uns binóculos 8x42 chegam para começar: não vale a pena gastar dinheiro em ótica de topo antes de saberes se gostas de esperar. Sozinho vês aves; com um guia percebes o que estás a ver, e nas primeiras vezes essa diferença paga-se bem.
E se o céu estiver vazio numa manhã sem sorte, olha para as falésias do cabo ao fim do dia. Uma população de algumas dezenas de casais de gralhas-de-bico-vermelho cria ali e volta ao dormitório quando a luz cai, e a população mais próxima está a cerca de 300 quilómetros para norte.