Há trilhos que se fazem por dentro da serra e há este, que se faz à beira do precipício, com o Atlântico a rebentar lá em baixo o tempo todo. O Trilho dos Pescadores, parte da Rota Vicentina, segue os carreiros que os pescadores de cana abriram ao longo de séculos para chegar aos seus poços nas arribas. Andar nele é andar onde quase ninguém anda — e onde o cuidado é obrigatório.
O que é a Rota Vicentina
A Rota Vicentina é uma rede de percursos a pé pelo sudoeste alentejano e pela costa vicentina algarvia, entre Santiago do Cacém e o Cabo de São Vicente. Tem dois grandes eixos: o Caminho Histórico, mais interior, e o Trilho dos Pescadores, sempre colado ao mar. É este último que dá as imagens mais brutais — areias soltas, falésias de xisto e arenito, cegonhas que nidificam nas rochas sobre o oceano, caso único no mundo.
Por etapas, de aldeia em aldeia
O trilho parte-se em etapas que ligam povoações onde se dorme e se come: Porto Covo, Vila Nova de Milfontes na foz do Mira, Almograve, Zambujeira do Mar, Odeceixe já no Algarve. Cada etapa dá um dia de caminhada e termina numa vila com casa de hóspedes, restaurante de peixe e praia. A da Zambujeira a Odeceixe, com a praia fluvial onde o rio Seixe encontra o mar, é das mais bonitas. Conselho firme: faça as etapas de norte para sul, com o vento dominante nas costas em vez de na cara.
E leve água a mais. Não há fontes pelo caminho — só arribas, mar e areia.
Quando ir e o que evitar
A primavera é a melhor época, com a costa coberta de flores e temperatura amena. O verão é demasiado quente e a areia funda cansa o dobro; o inverno traz temporais que tornam alguns trechos perigosos. Em qualquer altura, mantenha-se do lado de terra das vedações e nunca se aproxime do bordo das falésias para a fotografia — desmoronam-se sem aviso.
Logística honesta
- Reserve dormida com antecedência na primavera; as aldeias são pequenas e enchem.
- Há serviços de transporte de bagagem entre etapas — vale o dinheiro se não quiser carregar tudo.
- Calçado de caminhada a sério; as ténis de cidade não aguentam a areia nem o piso irregular.
Ao fim do dia, em Milfontes ou na Zambujeira, peça um prato de percebes ou de cavala grelhada e veja o sol cair sobre o mesmo mar que andou a contornar. Pernas cansadas, sal na pele — é assim que se mede um bom dia na costa vicentina.