Por cima das Portas de Coimbra, a antiga entrada da mata, há duas lápides de pedra que quase ninguém se detém a ler. Numa está gravada uma bula do papa Gregório XV, de 23 de julho de 1622, que proibia a entrada de mulheres nos conventos carmelitas, sob pena de excomunhão. Na outra, uma bula de Urbano VIII, de 28 de março de 1643, aplica a mesma pena a quem destruísse árvores ou apanhasse madeira. A Fundação Mata do Bussaco, que gere o espaço (é assim, com «ss», que a grafia oficial a escreve), lembra que os frades estavam obrigados a plantar árvores novas todos os anos e que o prior não podia mandar cortar nenhuma sem autorização da congregação provincial. Foi essa disciplina, mantida durante mais de dois séculos, que deixou na Serra do Buçaco 105 hectares de arboreto com cerca de 250 espécies de árvores e arbustos, uma das melhores coleções dendrológicas da Europa, segundo a própria Fundação. Em outubro, com o nevoeiro da manhã preso aos ciprestes e a luz já mais baixa, percebe-se melhor porque é que os carmelitas lhe chamavam «Deserto», no sentido de retiro afastado do mundo. A mata fica a cerca de 30 quilómetros de Coimbra, junto à vila termal do Luso, e a entrada a pé não custa nada.
Dos frades ao palácio neomanuelino
E a excomunhão, ainda vale? Evidentemente que não: hoje entra toda a gente, mulheres incluídas, e até os cães são aceites, desde que se cumpram as regras de segurança que a Fundação publica no seu site. O que ficou foi a floresta. O bispo de Coimbra, D. João Manuel, doou a mata aos Carmelitas Descalços em 1628, as obras do Convento de Santa Cruz arrancaram em agosto desse ano e a vida monástica regular começou por volta de 1630. Os monges plantaram e trataram o arvoredo durante gerações, e o melhor resultado dessa teimosia é o cedro-do-Bussaco (Cupressus lusitanica), que a Fundação descreve como o ex-líbris da mata. Depois da extinção das ordens religiosas, em 1834, a mata ficou alguns anos sem responsável, até passar em 1856 para a Administração Geral das Matas do Reino. É a fase a que a Fundação chama o «Bussaco romântico», de 1855 a 1910: a partir de 1850 entraram cedros, sequoias, araucárias e eucaliptos vindos de outras partes do mundo, e em 1886-87 desenhou-se o Jardim Novo, junto ao convento.
O pormenor mais curioso desse período são os fetos. Em 1888, o administrador Ernesto de Lacerda foi autorizado a visitar viveiros em França e na Bélgica para comprar plantas e sementes, e de lá vieram dez exemplares de fetos arbóreos da espécie Dicksonia antarctica. O Vale dos Fetos, construído em 1887-88 juntamente com o Lago Grande, deve o nome a fetos de porte arbóreo como esses. No mesmo ano de 1888, o ministro das Obras Públicas, Emídio Navarro, deu início à construção de um palácio real em estilo neomanuelino, com projeto do arquiteto e cenógrafo italiano Luigi Manini. As obras ficaram concluídas em 1907 e o edifício foi convertido em hotel de luxo, o Palace Hotel do Bussaco, que continua em funcionamento. Quem não é hóspede vê o exterior e pode passear no Jardim Novo.
O que esperar da mata em outubro
Outubro ainda tem o horário comprido da primavera: as portagens da mata abrem às 9h00 e fecham às 18h00, e o Convento, a Loja da Mata e o bar aguentam até às 18h30. A partir de novembro tudo recua, com fecho às 17h00 nas portagens e às 17h30 nos restantes serviços. A mata abre todos os dias do ano, menos a 25 de dezembro. Quanto ao tempo, a Fundação fala de um microclima de temperaturas amenas, precipitação elevada e nevoeiros matinais frequentes, e em outubro isso traduz-se num conselho simples: leva casaco impermeável e calçado com sola que agarre, porque há escadarias de pedra, calçada antiga e subidas, e com humidade tudo isso escorrega.
Não esperes um postal de folhas vermelhas. Nas encostas expostas a sul a vegetação é perenifólia, de tipo mediterrânico, e só nas encostas a norte domina a folha caduca, segundo a Fundação; os adernos, os loureiros e os medronheiros da Floresta Relíquia, por exemplo, não largam a folha no outono. O que a estação muda no Buçaco é sobretudo a atmosfera: o nevoeiro entre os ciprestes, a luz rasante nas escadarias, o silêncio de uma serra que no verão, sobretudo ao fim de semana, tende a ter bastante mais gente.
Sobre dinheiro, a conta é curta. A pé ou de bicicleta a entrada é gratuita. De carro, a tabela de 2026 da Fundação cobra €7 por veículo ligeiro, €3 por mota e €15 por autocaravana, e o valor é por veículo, não por pessoa, pelo que quatro pessoas no mesmo carro pagam menos de €2 cada. O Convento de Santa Cruz custa €3 por pessoa e as crianças até aos 11 anos não pagam. Os trilhos livres, sem monitor, são gratuitos; as visitas guiadas organizam-se para grupos a partir de 15 pessoas, por marcação prévia (grupos mais pequenos pedem orçamento), e os monitores trabalham em português, inglês, espanhol e francês.
Quatro trilhos e uma recomendação
A Fundação mantém quatro trilhos temáticos sinalizados, e as durações que se seguem são as que ela própria indica.
- Trilho da Água, cerca de duas horas, dificuldade média, com partida e chegada no Posto de Informação: liga o Vale dos Fetos à Fonte Fria e a fontes como a do Carregal, a de Santa Teresa e a de São Silvestre.
- Floresta Relíquia, também duas horas e dificuldade média. Cobre cerca de 15% da mata, o canto sudoeste que escapou às plantações exóticas, e é ali que estão os adernos, os medronheiros, os loureiros e os azevinhos.
- Via-Sacra: três horas, dificuldade média, com saída do Convento. Pelo caminho ficam as capelas dos Passos, e o Pretório e o Calvário são as estações de maior peso.
- Trilho Militar, o único classificado como fácil, também com três horas e saída do Convento, passa pela Porta de Sula, pelo Moinho de Sula, pelo Obelisco e pelo Museu Militar, entre outros pontos.
Se só tens uma manhã, faz o Trilho da Água. Funciona com nevoeiro, porque o interesse está ao nível do chão, na água da Fonte Fria a descer em cascata pelo Vale dos Fetos, nos fetos e nos lagos, e não numa vista. A Via-Sacra tem uma história própria: a Fundação data o seu início de 1644, por iniciativa de D. Manuel Saldanha, reitor da Universidade de Coimbra, com cruzes de pau-brasil que só em 1694-1695 foram substituídas pelas capelas, mandadas construir pelo bispo D. João de Melo. O miradouro da Cruz Alta, o ponto mais alto da serra, a cerca de 550 metros, compensa nos dias limpos; com nevoeiro cerrado ficas diante de um muro branco, e nesse caso não vale a pena fazer a subida só por causa da vista.
O Convento de Santa Cruz merece os €3 pela sua austeridade. Foi construído na simplicidade que a vocação eremítica do Deserto exigia, e a Fundação destaca o revestimento em cortiça e o embrechado como técnica decorativa, escolhas que dizem mais sobre a vida dos frades do que qualquer painel explicativo.
27 de setembro de 1810, a batalha que ainda se recria
O Trilho Militar existe porque a mata foi campo de batalha. A 27 de setembro de 1810, as tropas anglo-lusas de Wellington enfrentaram aqui as de Masséna, e o Convento serviu de base de operações a Wellington. A Fundação fala em cerca de 5000 baixas do lado francês e cerca de 1300 do lado aliado, e sublinha que a derrota das brigadas de Masséna atrasou a chegada do exército francês a Lisboa, o que deu mais tempo para reforçar as Linhas de Torres Vedras. Este ano, nos dias 26 e 27 de setembro, cerca de 240 recriadores de Portugal, Irlanda, Espanha e Reino Unido assinalaram os 216 anos da batalha, entre o Luso, o Bussaco e a Mealhada, segundo o município da Mealhada. O Museu Militar fica no percurso do trilho, mas confirma o horário de abertura antes de contares com ele.
Chegar, comer e o resto do dia
De carro, a Fundação indica a saída da Mealhada na A1, em direção ao Luso pela EN 234, ou a saída do Luso no IP3, pela EN 235. De transportes públicos, o mais prático, segundo a Fundação, é o comboio regional de Coimbra até à Mealhada, com partidas de hora a hora, e um táxi dali até à mata. O apeadeiro de Luso-Buçaco também serve a zona, mas a página da Fundação lista apenas quatro partidas por dia desde Coimbra, por isso consulta o horário da CP antes de apostares nele.
Lá dentro há vários parques de estacionamento e uma cafetaria junto à Loja da Mata, com tostas, pizzas e sandes. Os piqueniques são permitidos nas zonas com mesas e bancos, desde que o lixo acabe nos contentores. Para um almoço a sério, desce à Mealhada, a capital do leitão assado à moda da Bairrada, e se ainda sobrar tempo, passa no Luso pela Fonte de São João, onde a água corre das bicas para quem trouxer garrafas.
Chega perto das nove, quando as portagens abrem: o nevoeiro matinal é frequente, segundo a Fundação, e é a melhor hora para os fetos e para a Fonte Fria. Com trilhos de duas a três horas e serviços a fechar às 18h00 e 18h30, quem começa um trilho de três horas depois das 15h00 acaba a correr. E não deixes a visita para novembro sem fazer as contas: a partir de dia 1 as portagens fecham às 17h00 e perdes uma hora inteira.