Há uma casa nos Capelinhos que ainda tem as janelas ao nível do chão — não porque foi construída assim, mas porque a lava e a cinza subiram até lá e nunca mais desceram. O farol ao lado, hoje meio soterrado, esteve dezassete anos apagado depois de a terra debaixo dele ter começado a tremer, em 1957, e de um vulcão ter nascido no mar em frente à ilha. O Faial é a ilha açoriana onde a geologia ainda se sente por baixo dos pés, e é também a ilha onde, há mais de sessenta anos, quem atravessa o Atlântico de veleiro faz questão de pintar o nome do barco numa parede — por superstição, não por vaidade.
O vulcão que nasceu do mar em 1957
A 27 de setembro de 1957, pescadores da ponta oeste do Faial começaram a ver o mar a fumegar junto ao cabo dos Capelinhos, e ninguém na altura sabia bem o que estava a acontecer debaixo da água. Em poucos dias, uma nova ilhota de cinzas e vapor emergiu a menos de um quilómetro da costa, ligando-se depois à ilha principal por um istmo de material vulcânico ainda quente. A erupção durou treze meses, até outubro de 1958, e acrescentou cerca de 2,4 quilómetros quadrados de terra nova ao Faial — uma paisagem lunar de cinza escura que ainda hoje impede quase toda a vegetação que tenta agarrar-se a ela. A cinza caiu tão longe que chegou a cobrir campos na Terceira, a mais de cem quilómetros de distância, e durante meses o ar em Horta cheirou a enxofre mesmo em dias sem vento. Quando a erupção finalmente parou, ninguém na ilha tinha dúvidas de que a paisagem à sua volta tinha mudado para sempre, e não para melhor: mais de dois mil faialenses perderam terra cultivável e casas soterradas, e muitos acabaram por emigrar. Ainda hoje, quem cresceu na freguesia da Praia do Norte conta a história dos Capelinhos como se tivesse acontecido a semana passada, não há setenta anos.
O farol dos Capelinhos, construído em 1903, ficou com a base enterrada em vários metros de cinza vulcânica — as janelas do primeiro piso ficaram à altura dos olhos de um adulto de pé no chão novo. À sua volta, o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, inaugurado em 2008 e enterrado sob a própria paisagem para não competir com ela, conta a história através de sismógrafos da época, fotografias e relatos de quem viveu a erupção porta a porta. A entrada custa 3 euros para adultos e o centro fecha à segunda-feira. Vale a pena reservar pelo menos uma hora só para o percurso exterior até ao farol, que atravessa a cinza endurecida como se fosse outro planeta — em dias de vento forte, que aqui são a maioria, leve um casaco, porque não há uma árvore a quinze minutos à roda que pare o ar do Atlântico.
Muitos dos faialenses que perderam tudo emigraram para os Estados Unidos ao abrigo do Azorean Refugee Act, assinado pelo Presidente Eisenhower em 1960 especificamente por causa dos Capelinhos.
Há bairros inteiros em New Bedford e Fall River, no Massachusetts, com famílias que saíram daqui — e que ainda hoje voltam no verão para ver a ilha que os expulsou e que, ironicamente, se tornou uma das atrações naturais mais fotografadas dos Açores.
A marina de Horta, onde não pintar dá azar
Se os Capelinhos são a ilha vista de fora para dentro, a marina de Horta é a ilha vista de dentro para o mundo, e as duas juntas explicam melhor o Faial do que qualquer guia consegue resumir numa frase. Desde os anos 1960 que os veleiros que cruzam o Atlântico — muitos a caminho das Caraíbas ou de regresso à Europa depois de uma volta ao mundo — param aqui para reabastecer, e a tradição diz que quem não deixa uma pintura no cais ou nos muros do porto arrisca má sorte na próxima travessia. Já se pintou de tudo: nomes de barcos, bandeiras de dezenas de países, datas de travessias concluídas, frases de sorte em línguas que vão do sueco ao japonês. Nos anos de maior tráfego transatlântico, os funcionários da marina contam mais de mil e quinhentos veleiros a passar pelo cais de Horta entre maio e outubro, a maioria a caminho de casa depois de meses passados no Caribe ou nas Canárias. Algumas pinturas têm quarenta anos, sobrepostas por camadas de tinta mais recente que já começam também a desbotar. Caminhar pela marina sem pressa, a ler as mais antigas que ainda resistem por baixo das novas, é provavelmente a melhor hora que se pode passar em Horta sem gastar um euro — e a que mais gente salta, apressada a chegar ao Peter Café Sport para o primeiro gin do dia.
Mesmo ao lado da marina fica esse bar, aberto em 1918 e transformado ao longo de um século no ponto de encontro obrigatório de todos os navegadores do Atlântico Norte. As paredes estão cobertas de burgees e fotografias de tripulações, e o piso de cima aloja o Museu do Scrimshaw, com centenas de peças de marfim de cachalote gravadas por baleeiros açorianos ao longo de mais de um século. Peça o gin da casa, feito segundo a receita que o Peter's usa desde os anos 1970: é doce, forte, e bebe-se com gelo enquanto se vê os veleiros a entrar e a sair da marina lá fora — não vale a pena pedir outra coisa na primeira visita.
Vale ainda subir ao Monte da Guia, a cratera vulcânica que fecha a baía de Horta a sul, onde funcionou até 1985 uma fábrica de processamento de baleias — hoje em ruínas, mas visitável, e um lembrete de que a economia da ilha viveu da caça ao cachalote durante mais de cem anos antes de Portugal proibir a atividade em 1984. A vista de lá de cima, com o Pico a erguer-se do outro lado do canal, é a fotografia que mais se repete nos perfis de quem visita o Faial, e por boas razões.
A travessia até ao Pico: vinte e um quilómetros de canal
Entre Horta e a Madalena, na costa oposta do Pico, há apenas 21 quilómetros de mar, e a travessia de ferry demora cerca de trinta minutos. A operadora Atlânticoline faz o trajeto várias vezes por dia durante todo o ano, com bilhete de cerca de 4,10 euros por pessoa no verão, e é de longe a forma mais fácil — e mais bonita — de ver as duas ilhas ao mesmo tempo. Em dias claros, o vulcão do Pico, com os seus 2.351 metros, domina o horizonte durante toda a viagem, e não é raro avistar golfinhos a acompanhar o barco a meio do canal. Vale a pena guardar o horário da manhã, quando a luz ainda é baixa e o pico costuma estar livre de nuvens — ao final da tarde, a névoa sobe quase sempre e tapa o cume.
Não vale a pena visitar o Faial sem atravessar para o Pico pelo menos num dia, nem que seja só para ver, dos vinhedos protegidos por muros de pedra negra classificados pela UNESCO desde 2004, o Faial inteiro do outro lado da água. E o inverso também é verdade: quem fica só no Pico perde a única ilha dos Açores onde se pode andar por cima de uma erupção com menos de setenta anos.
A Caldeira do Faial, longe do movimento de Horta
No centro da ilha, a Caldeira do Faial é uma cratera de quase dois quilómetros de diâmetro e 400 metros de profundidade, com um trilho de cerca de sete quilómetros que contorna a borda inteira — três a quatro horas de caminhada, sem sombra na maior parte do percurso, por isso a melhor altura é de manhã cedo, antes de a neblina típica do meio-dia subir e tapar a vista. Nos dias raros de céu completamente limpo, vê-se o fundo da cratera coberto de vegetação densa e, ao longe, o Pico a espreitar por cima da orla. É um contraste completo com os Capelinhos: ali a paisagem é toda cinza e sem vida, aqui é verde fechado e húmido, e as duas ficam a menos de vinte minutos de carro uma da outra. (A primeira vez que se sobe até lá, custa a acreditar que uma ilha com 21 quilómetros de comprido consegue esconder um clima tão diferente em cada ponta.)
Alugar um carro em Horta custa a partir de 30 euros por dia na época baixa — suficiente para percorrer a ilha inteira num só dia, dos Capelinhos à Caldeira, passando pela costa norte da Praia do Norte. Não é uma ilha grande: 173 quilómetros quadrados, o que dá para conhecer com calma em três dias cheios sem sentir que se está a correr contra o relógio.
Quando ir e como chegar
A SATA Azores Airlines liga Ponta Delgada a Horta em cerca de 45 minutos, várias vezes por dia, e há também ligação direta a partir de Lisboa em alguns meses do ano. Julho e agosto trazem o melhor tempo, mas também a Semana do Mar, o maior evento náutico do arquipélago, que enche a marina de veleiros e a cidade de concertos — reserve alojamento com pelo menos dois meses de antecedência se pensa ir nessa altura. Setembro é a alternativa mais sensata: o mar ainda está morno, os preços descem e a marina continua cheia de barcos a caminho de casa depois do verão no Atlântico Norte.
Quanto ao inverno, o Faial fecha-se sobre si próprio — chove com frequência e o vento pode cancelar ferries para o Pico durante dias seguidos — mas é também quando a ilha se vê sem turistas nenhuns, com o Peter Café Sport cheio só de gente local. Não é a viagem certa para quem quer sol garantido, mas é a única altura em que se percebe mesmo o que significa viver numa ilha vulcânica no meio do Atlântico Norte, longe de tudo.