Às sete da manhã, a Rua de Santa Catarina no Porto ainda está vazia, mas já há mochilas encostadas às portas dos cafés. Um casal alemão estuda o mapa da credencial enquanto pede duas bicas. Ninguém fala muito alto — é cedo demais e há quilómetros pela frente. Este é o retrato mais fiel de setembro no Caminho Português de Santiago: peregrinos a sério, poucos turistas de ocasião, e um país que se atravessa a pé, aldeia a aldeia, até à fronteira com a Galiza.
O Caminho de Santiago não é exclusivo de Espanha. A partir de Portugal existem duas rotas oficiais e sinalizadas que terminam na Praça do Obradoiro, em Santiago de Compostela: o Caminho Central, que sobe pelo interior do Minho, e o Caminho da Costa, que acompanha o litoral atlântico quase até à raia. Setembro é, para quem conhece bem estas rotas, o mês em que tudo se encaixa — e vale a pena perceber porquê antes de reservar os primeiros albergues.
Porque setembro é o mês certo para caminhar
Agosto no Minho é implacável: tardes de trinta e tantos graus, albergues a lotar às três da tarde e filas para o carimbo da credencial em Ponte de Lima. Em setembro, a temperatura desce para uma média confortável entre 18 e 26 graus, o número de peregrinos cai de forma acentuada face ao pico de Verão e as chuvas de outubro ainda não chegaram para transformar os trilhos de terra batida em lama. É uma janela estreita, mas real, entre o calor insuportável e as primeiras frentes atlânticas.
Há ainda uma razão prática que poucos guias mencionam: as vindimas. Setembro é também a época da colheita da uva nas encostas do Vinho Verde, que o Caminho Central atravessa entre Barcelos e Ponte de Lima. Passar por uma quinta a meio da manhã, com trabalhadores a cortar cachos e a encher cestos, dá ao percurso uma dimensão que nenhum mês de Verão oferece.
Duas rotas, duas experiências
Escolher entre o Caminho Central e o Caminho da Costa não é uma questão de qual é "melhor" — são experiências diferentes que atraem perfis diferentes de caminhante.
Caminho Central: aldeias, vinhas e granito
É a rota mais antiga e mais caminhada a partir de Portugal, com cerca de 240 quilómetros entre Lisboa e Santiago pelo troço histórico, embora a esmagadora maioria dos peregrinos comece no Porto, reduzindo o percurso a pouco mais de 120 quilómetros até à fronteira. Atravessa Barcelos, Ponte de Lima e Rubiães antes de entrar na Galiza por Valença e Tui. O piso alterna entre calçada portuguesa no centro das vilas e caminhos rurais entre milheirais, com igrejas românicas e solares de granito a marcar cada etapa. É a opção mais concorrida, mas também a mais bem preparada em termos de infraestrutura: cafés abertos cedo, sinalização impecável e albergues municipais a cada 15 ou 20 quilómetros.
Caminho da Costa: sal, dunas e vilas de pescadores
Sobe junto ao oceano desde o Porto, passando por Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Esposende, Viana do Castelo e Caminha, antes de atravessar o rio Minho de barco até A Guarda e seguir depois para o interior galego. É fisicamente mais exigente em alguns troços — areia solta em praias como a de Ofir cansa mais do que qualquer subida de granito — mas recompensa com pôr-do-sol sobre o Atlântico e vilas de pescadores que ainda vivem da faina, não do turismo. Tem menos peregrinos do que o Central, o que em setembro se traduz em albergues quase vazios e uma sensação de caminho só para quem o escolheu.
As etapas que ficam na memória
Independentemente da rota, há paragens que qualquer peregrino recorda meses depois:
- Porto: ponto de partida da maioria, com a Sé a servir o primeiro carimbo da credencial e os alojamentos junto à Ribeira a encherem-se de mochilas na véspera da partida.
- Barcelos: etapa clássica do Caminho Central, conhecida pela feira semanal e pela lenda do galo, com um centro histórico que compensa o desvio de rota.
- Ponte de Lima: a vila mais fotografada do percurso, com a ponte romana sobre o rio Lima e um passeio ribeirinho onde vale a pena parar mais do que uma noite.
- Valença: última cidade portuguesa antes da fronteira, com a fortaleza a dominar o vale do Minho e vista directa para Tui, do outro lado do rio.
- Tui, já na Galiza: primeira paragem espanhola, onde a arquitectura muda de forma quase imediata e a catedral fortificada assinala a entrada noutro país.
Credencial, albergues e o ritmo diário
A credencial do peregrino não é opcional — é o documento que, carimbado em cada etapa, dá acesso aos albergues públicos e, no final, permite pedir a Compostela em Santiago. Compra-se por poucos euros nas sés catedrais, em associações de amigos do Caminho ou em alguns albergues privados junto ao ponto de partida escolhido.
O ritmo típico ronda os 20 a 25 quilómetros por dia, distribuídos ao longo de cinco a sete etapas a partir do Porto. Quem parte de Lisboa precisa de duas a três semanas inteiras, algo que só faz sentido para quem dispõe mesmo desse tempo. Os albergues públicos custam entre 6 e 10 euros por noite e funcionam por ordem de chegada — em setembro, ao contrário de agosto, raramente é preciso preocupar-se em chegar antes do meio-dia para garantir cama.
O que levar na mochila
- Botas ou sapatilhas de trilho já rodadas — nunca calçado novo, o Caminho não perdoa bolhas evitáveis.
- Meias técnicas de caminhada, de preferência duas mudas, para trocar a meio do dia se necessário.
- Mochila entre 30 e 40 litros, com peso total a não ultrapassar os 10% do peso corporal.
- Kit ligeiro de primeiros socorros, com atenção especial a compressas e agulha para tratar bolhas.
- Uma camada corta-vento — as manhãs de setembro no litoral minhoto começam frias, mesmo quando a tarde promete calor.
Muito além da fé
Vale a pena desfazer um equívoco comum: caminhar até Santiago não exige motivação religiosa. A maioria dos peregrinos que se cruzam no Caminho Português em setembro caminha por razões que nada têm de espiritual — uma pausa forçada entre empregos, o desafio físico, ou simplesmente a vontade de ver Portugal a um ritmo que nenhum carro permite. E é justamente esse ritmo que muda a percepção do país: repara-se no cheiro da lenha queimada às sete da manhã, na senhora que estende a roupa à porta de casa em Rubiães, no cão que acompanha o caminhante durante três quilómetros antes de voltar para trás.
Há também quem trate o Caminho como um exercício de turismo lento, sem qualquer intenção de completar as etapas até Compostela — caminha-se três ou quatro dias entre o Porto e Ponte de Lima, dorme-se bem, come-se comida de tasca de estrada, e regressa-se de comboio. Não há regra que obrigue a terminar em Espanha para que a experiência valha a pena.
Isto não significa que o percurso seja fácil todos os dias. Há etapas em que o entusiasmo da partida esbarra em pés inchados e numa vontade genuína de desistir a meio da tarde — e é normal. Quem já caminhou sabe que esses são, quase sempre, os dias de que mais se fala depois.
Setembro fecha, com a chegada de outubro, a melhor janela do ano para esta experiência. Quem está a pensar nela para o próximo ano devia começar já a reservar os primeiros albergues do troço inicial — os do Porto e de Barcelos são, invariavelmente, os primeiros a encher.