Vilarinho da Furna

Vilarinho da Furna: a aldeia que dorme debaixo de água no Gerês

Vilarinho da Furna: a aldeia que dorme debaixo de água no Gerês

Quando o nível da albufeira baixa, no fim de um verão seco, a água recua e deixa à vista paredes de granito, ruas empedradas e os contornos das casas. É Vilarinho da Furna a regressar à superfície — uma aldeia inteira que foi inundada de propósito, e que volta a aparecer sempre que a barragem o permite.

A aldeia que se afogou para fazer eletricidade

Vilarinho da Furna ficava num vale do Parque Nacional da Peneda-Gerês, perto de Campo do Gerês, no concelho de Terras de Bouro. Era uma comunidade rara: geria-se em regime comunitário, com terras, gado e decisões partilhadas por todos os vizinhos, um modelo quase sem paralelo no país. No fim dos anos sessenta, a construção da barragem da Companhia Hidroeléctrica do Cávado condenou a aldeia. Os habitantes foram realojados e, em 1972, a água cobriu as casas.

Quando se vê e quando não se vê

A regra é simples e nem sempre simpática: vê-se a aldeia quando a albufeira está baixa, sobretudo no fim do verão e no início do outono de anos secos. Em invernos e primaveras chuvosos, a água sobe e Vilarinho desaparece por completo. Não vale a pena prometer a ninguém que vai ver as ruínas — depende inteiramente da chuva do ano. Se chegar e estiver tudo submerso, fica na mesma a caminhada à volta da albufeira, que é das mais bonitas do Gerês.

E é estranho, convém dizer. Caminhar sobre o que foi a vida de uma aldeia tem um peso que a fotografia não transmite.

O museu que guardou o que a água levou

Antes de a aldeia ser inundada, muito do seu espólio foi recolhido. Em Campo do Gerês existe o Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, pequeno mas honesto, que conta a história da comunidade, mostra alfaias, fotografias e explica o tal sistema comunitário. Visite-o antes de ir à albufeira — dá outro sentido às pedras que vai encontrar.

Como chegar e o que levar

  • Use Campo do Gerês como base; daí parte o trilho de acesso à albufeira.
  • Calçado fechado: o terreno junto à água é irregular e escorregadio quando o lodo seca.
  • Confirme o nível da água antes de ir, perguntando localmente — poupa uma desilusão.

No regresso, ao olhar a barragem do alto, pensa-se no preço do progresso. Uma aldeia inteira trocada por uma turbina, com os seus mortos transferidos para outro cemitério. As pedras que reaparecem no verão são tudo o que resta para o lembrar.