Imagine um cavalo desenhado numa rocha junto a um rio há cerca de vinte e cinco mil anos, e que ainda lá está, ao ar livre, sem vidro a proteger. No vale do Côa, no nordeste da Beira, há milhares destas gravuras paleolíticas espalhadas pelas escarpas xistosas, e foi essa concentração extraordinária de arte rupestre ao ar livre que valeu à região a classificação como Património Mundial pela UNESCO.
O que se vê e como
As gravuras representam sobretudo animais — cavalos, auroques, cabras-monteses — incisos ou picotados na rocha por caçadores-recolectores do Paleolítico Superior. O que torna o Côa único é estarem ao ar livre, em pleno vale, e não dentro de uma gruta como em Lascaux ou Altamira. Foram descobertas nos anos 90, durante os estudos para uma barragem no rio Côa que acabou por não se construir, precisamente para salvar as gravuras — uma decisão que mudou o destino da região.
Não se anda livremente pelo vale a tropeçar em gravuras. As visitas são guiadas e em número limitado, organizadas a partir do Parque Arqueológico, e fazem-se a três núcleos principais: Canada do Inferno, Penascosa e Ribeira de Piscos. Cada núcleo tem o seu carácter; Penascosa, por exemplo, vê-se bem ao fim da tarde, quando a luz rasante faz saltar os contornos das figuras na pedra. Reserve com antecedência, porque os lugares esgotam e não se entra sem guia.
O museu e o vale
O Museu do Côa, em Vila Nova de Foz Côa, é o ponto de partida e vale por si — um edifício de betão encaixado na encosta, sobre a foz do Côa no Douro, com a exposição que dá contexto às gravuras antes de as ver no terreno. Ver primeiro o museu, depois as rochas, é a ordem certa.
À volta, é território de vinha e amendoeira. Quem vier no fim de fevereiro ou início de março apanha as amendoeiras em flor a cobrir as encostas de branco e rosa — um espetáculo natural que coincide bem com a tranquilidade dos meses fora de época.
Um aviso honesto: as gravuras não são monumentais nem coloridas. São linhas finas na pedra, e sem o guia a apontar, muita gente não as distingue. Vá com curiosidade e paciência, não à espera de um postal.
Planear a visita
Vá de carro até Vila Nova de Foz Côa; não há transporte público útil para os núcleos, e o próprio parque trata da deslocação em todo-o-terreno até às rochas. Combine com a Linha do Douro e as vindimas no outono, ou com a flor da amendoeira no fim do inverno. Leve calçado fechado e água — o terreno é xistoso e irregular.