viagens

Ilha Terceira, Açores: o Algar do Carvão e a tourada à corda

Um roteiro pela Ilha Terceira, nos Açores — do Algar do Carvão a Angra do Heroísmo, sem esquecer a tourada à corda e a alcatra em panela de barro.

Ilha Terceira, Açores: o Algar do Carvão e a tourada à corda

Há um buraco no meio da Terceira por onde se desce a pé até ao interior de um vulcão, degrau a degrau, com as paredes cobertas de estalactites de sílica que brilham à luz da lanterna. São trezentos e trinta e oito degraus até ao fundo do Algar do Carvão, uma chaminé vulcânica com cerca de noventa metros de profundidade que termina numa pequena lagoa alimentada por água da chuva infiltrada na rocha. Lá em cima, à superfície, a paisagem não denuncia nada disto: campos verdes cortados por muros de pedra negra, vacas leiteiras espalhadas pelas pastagens, e ao fundo o oceano Atlântico a fechar o horizonte por todos os lados. É esta dualidade — o que se vê e o que está escondido por baixo — que resume bem a ilha Terceira, a terceira maior dos Açores e a segunda a ser povoada, já no século XV.

Como chegar e quando ir

Chegar à Terceira já não obriga às escalas complicadas que ainda marcam outras ilhas do arquipélago: há ligações diretas desde Lisboa operadas pela Azores Airlines, pela TAP Air Portugal e pela Azul, com um tempo médio de voo de duas horas e quarenta e dois minutos até ao aeroporto das Lajes. Em julho de 2026 estão previstas mais de cento e trinta e sete ligações semanais entre as duas cidades, o que torna a ilha uma das mais acessíveis do arquipélago a partir do continente — ao contrário do Corvo ou das Flores, onde a logística ainda pesa bastante na decisão de viagem. Os preços variam muito consoante a antecedência da compra: reservar cerca de quarenta dias antes costuma garantir os valores mais baixos, e outubro tende a ser o mês mais barato para voar, precisamente quando a época balnear já arrefeceu mas a ilha continua verde. Melhor opção para quem quer mesmo ver uma tourada à corda: viajar entre maio e 15 de outubro, que é a janela oficial da época taurina na ilha — fora desse período, as ruas das freguesias ficam sem arraial e sem música.

Angra do Heroísmo, património mundial desde 1983

A cidade de Angra do Heroísmo foi classificada Património Mundial pela UNESCO em 1983, reconhecimento que distinguiu o centro histórico como exemplo notável de urbanismo português de matriz atlântica, moldado a partir do século XV pela importância do seu porto nas rotas entre a Europa, a África e o Novo Mundo. Caminhar pela Rua de São João ou junto à Sé Catedral, reconstruída depois de o terramoto de 1980 ter destruído boa parte do centro, é perceber como as fachadas coloridas e as varandas de ferro forjado sobreviveram a séculos de abalos sísmicos e a mais de um incêndio. Monte Brasil, o cone vulcânico extinto que fecha a baía a poente, oferece a partir do Miradouro do Pico das Cruzinhas uma vista sobre os telhados vermelhos da cidade e sobre a Fortaleza de São João Baptista, erguida pelos espanhóis durante os sessenta anos de domínio filipino. Na Praça Velha, o Palácio dos Capitães-Generais guarda ainda a memória de ter sido, durante um breve período do século XIX, sede do governo português no exílio, quando as tropas liberais se instalaram na ilha antes de retomar o continente. A baía de Angra foi, durante séculos, escala estratégica das naus da Carreira da Índia no regresso a Lisboa carregadas de especiarias, o que tornou a cidade alvo cobiçado por corsários — foi nestas águas que o inglês Francis Drake capturou a nau São Filipe em 1587, um episódio que ainda hoje se conta nos museus da cidade e que ajuda a explicar porque é que os espanhóis insistiram em erguer uma fortaleza daquela dimensão num pedaço de rocha vulcânica. Vale ainda parar diante dos azulejos que decoram várias fachadas da baixa, muitos deles do século XVIII, sobreviventes de terramotos que noutras cidades teriam apagado por completo esse tipo de pormenor. Nem tudo em Angra é postal antigo, já agora: em agosto, quando as Festas do Espírito Santo se sobrepõem à romaria e às touradas de rua, o trânsito no centro histórico costuma ser bem mais lento do que qualquer guia turístico deixa perceber.

Algar do Carvão: descer a um vulcão sem lava

O Algar do Carvão fechou em outubro de 2024 para a construção de um novo centro de visitantes e só reabriu em 2026, ainda sem as instalações concluídas — o horário, gerido pela associação Os Montanheiros, passou a diário a partir de abril, entre as 14h30 e as 17h00, mas vale sempre confirmar antes de organizar o dia à volta disto. A entrada custa dez euros por pessoa e, para já, não inclui o bilhete combinado com a Gruta do Natal, que nos tempos normais junta as duas cavidades vulcânicas por quinze euros. Lá dentro, a temperatura desce vários graus em poucos metros e a humidade cola a roupa ao corpo. Leve um casaco, mesmo em pleno agosto, porque a ilusão de calor de verão desaparece assim que se ultrapassam os primeiros vinte degraus da descida.

A tourada à corda: a tradição que não mata o touro

Isto ainda faz sentido em pleno 2026?

Diferente das corridas de touros que se veem em Espanha, a tourada à corda não prevê a morte do animal: uma corda com cerca de cem metros, presa ao pescoço do touro, é segura por um grupo de sete a doze pastores, trajados de blusa branca, chapéu preto e calça acinzentada, que conduzem o animal por um percurso de rua fechado ao trânsito e demarcado por linhas brancas no chão. Junto ao touro correm ainda os capinhas, normalmente rapazes da própria freguesia, que desafiam o animal a poucos metros de distância com um guarda-chuva ou um pano, sempre prontos a saltar para dentro de um portal ou por cima de um muro baixo assim que ele reage. A primeira referência documentada remonta a 1622, quando se correram touros pelas ruas de Angra para celebrar a canonização de São Francisco Xavier e de Santo Inácio de Loyola, e a tradição espalhou-se depois pelas freguesias vizinhas como parte das festas em honra dos santos padroeiros. Entre 1 de maio e 15 de outubro, a época oficial, realizam-se todos os anos mais de quatrocentas touradas à corda espalhadas pelas freguesias da ilha, e grupos de forcados amadores como a Tertúlia Tauromáquica, de Angra, ou o Ramo Grande, da Praia da Vitória, mantêm viva a componente mais performativa da festa. Só em agosto de 2025 realizaram-se mais de cinquenta touradas à corda entre os concelhos de Angra e da Praia da Vitória, um número que dá uma ideia de como a tauromaquia de rua ainda organiza boa parte do calendário social do verão terceirense. Nem sempre corre como deveria — em agosto de 2023, em Agualva, na Praia da Vitória, uma tourada à corda terminou com três touros mortos, um episódio que gerou indignação pública e reacendeu o debate sobre uma tradição que se orgulha, precisamente, de nunca ferir o animal.

Serra do Cume e o mosaico verde

A cerca de vinte minutos de carro de Angra, o Miradouro da Serra do Cume fica no rebordo de uma cratera com quinze quilómetros de diâmetro, resultado da maior erupção vulcânica que moldou a ilha, e sobe até quinhentos e quarenta e cinco metros de altitude. Dali vê-se, de um lado, a baía da Praia da Vitória e a antiga Base das Lajes, e do outro um mosaico de pastagens fechadas por muros de pedra vulcânica que, à hora dourada do fim da tarde, ganha uma textura que nenhuma fotografia de telemóvel consegue realmente captar. Durante a Segunda Guerra Mundial, o alto da serra serviu de posto de vigia sobre o Atlântico Norte — hoje resta o silêncio, quebrado apenas pelos guizos das vacas e, de vez em quando, por um vento que obriga a segurar bem o chapéu.

Biscoitos: piscinas de lava e vinha à beira-mar

Na costa norte, a freguesia dos Biscoitos oferece talvez a imagem mais fotografada da Terceira depois do Algar do Carvão: piscinas naturais escavadas em lava basáltica que a água do mar foi esculpindo ao longo de milhares de anos, adaptadas para banho pela primeira vez em 1969 e distinguidas todos os anos com Bandeira Azul. À volta das piscinas, pequenos muros de pedra chamados curraletas protegem as vinhas de Verdelho do vento carregado de sal — uma técnica de cultivo que transformou um solo de lava em paisagem vinícola e que se explica melhor no Museu do Vinho dos Biscoitos, fundado em 1990. Não vale a pena visitar os Biscoitos só para "ver e ir embora": reserve pelo menos uma tarde inteira para nadar, provar um branco seco de produtor local e caminhar entre as curraletas antes do jantar.

A alcatra: o prato que precisa de uma panela de barro

A alcatra é uma peça de carne de vaca cozinhada lentamente num alguidar de barro vermelho, coberta de cebola, toucinho fumado, cravinho e vinho tinto, e levada ao forno durante horas até a carne se separar sozinha com um garfo. A receita chegou com os primeiros povoadores vindos de Trás-os-Montes, que traziam a memória da chanfana, e transformou-se numa espécie de prato de festa ligado às Festas do Espírito Santo — tão identitário que a ilha tem, desde 2007, uma Confraria da Alcatra dedicada a defender a receita contra atalhos como a panela de pressão ou, pior ainda, o micro-ondas. Num restaurante como a Quinta do Martelo, perto de Angra, uma alcatra para duas pessoas com acompanhamentos ronda os quarenta a cinquenta euros. Evite os locais mais turísticos do centro histórico, onde já se viu cobrar bem mais por uma versão empobrecida do prato — em Angra isso aconteceu e os terceirenses não deixam esquecer.

Quanto tempo reservar para a Terceira

Quatro dias chegam para perceber a ilha sem correr — dois em Angra e arredores, um para o Algar do Carvão e a Serra do Cume, um último para os Biscoitos e para a costa norte. Alugar carro é praticamente obrigatório, porque os transportes públicos entre freguesias são escassos e pensados para quem mora ali, não para quem quer encaixar quatro pontos de interesse diferentes num só dia de férias. Quem chegar em agosto, à boa hora de uma tourada à corda a fechar uma rua qualquer numa freguesia sem nome nos mapas turísticos, percebe rapidamente porque é que tanta gente que passa pela Terceira acaba por adiar o regresso a Lisboa.