Lisboa

Turismo de massas em Lisboa e no Porto: o que esconde o boom do Alojamento Local nas férias de verão

Turismo de massas em Lisboa e no Porto: o que esconde o boom do Alojamento Local nas férias de verão
Rua estreita e colorida do centro histórico de Lisboa cheia de turistas no verão

São oito da manhã na Rua de Santa Justa e já não há espaço para andar direito. Grupos de turistas param a meio da calçada para tirar fotografias, malas de rodinhas raspam nas pedras irregulares e, por cima das cabeças, uma fila de bandeirolas de operadores turísticos aponta para o elevador do mesmo nome. Quem mora ali há vinte anos aprendeu a sair de casa mais cedo, só para chegar ao trabalho sem ter de pedir licença a um grupo de doze pessoas paradas à porta do prédio.

Um número que cresceu mais depressa do que as cidades conseguiram absorver

O registo de Alojamento Local em Portugal ultrapassou as 130 mil unidades a nível nacional, com Lisboa e Porto a concentrarem a fatia mais visível — e mais discutida — desse total. Nos bairros históricos, a proporção é ainda mais desequilibrada: em zonas como Alfama, o Castelo ou a Baixa lisboeta, e na Ribeira e no Centro Histórico portuense, há ruas inteiras em que mais de metade das frações deixou de ter residentes permanentes. O fenómeno não é novo, mas o verão torna-o visível de uma forma que os relatórios técnicos raramente conseguem transmitir: filas de check-in com cacifos de chaves na rua, malas a rebolar às quatro da manhã, e mercearias de bairro substituídas por lojas de ímanes e t-shirts com elétricos amarelos estampados.

Porque é que os proprietários preferem o turista ao inquilino

A conta é simples de fazer e por isso continua a convencer proprietários todos os anos. Um T1 remodelado no centro histórico de Lisboa pode gerar, em Alojamento Local durante os meses de pico, entre 1.500 e 2.500 euros de receita mensal — mais do dobro do que a mesma fração renderia num arrendamento tradicional de longa duração, que ronda os 700 a 1.000 euros nessas zonas. A diferença é ainda maior no Porto, onde a renda de longa duração no Centro Histórico costuma ficar abaixo dos 650 euros, mas uma unidade turística bem localizada e bem avaliada pode ultrapassar os 1.800 euros mensais em julho e agosto. Para o proprietário, a escolha entre arrendar a um casal jovem ou a turistas de passagem deixou de ser apenas financeira — tornou-se, em muitos casos, a única forma de rentabilizar um imóvel comprado a preços que também dispararam na última década.

O que os residentes perdem quando o bairro esvazia

O problema não é só o preço da renda — é a erosão do que faz um bairro funcionar como bairro. Quando a maioria dos fogos de um quarteirão passa a rotação turística, desaparecem os serviços que dependem de clientes fixos: a mercearia que fiava até ao fim do mês, a lavandaria, o café onde se conhecia toda a gente pelo nome. Em seu lugar chegam negócios desenhados para uma clientela que fica três noites e não volta — lojas de recordações, restaurantes com menus fotografados em várias línguas, quiosques de aluguer de trotinetes. As câmaras municipais de Lisboa e do Porto têm tentado responder com zonas de contenção onde novos registos de Alojamento Local ficam suspensos, mas o efeito nas unidades já existentes é praticamente nulo — o que está registado, fica.

Nem todo o turismo é igual

Vale a pena separar dois fenómenos que se confundem no discurso público. Por um lado, há o alojamento turístico de longa data — pensões, residenciais e pequenos hotéis familiares que sempre existiram nestas cidades e que geram emprego local direto. Por outro, há a plataforma de arrendamento de curta duração gerida à distância, muitas vezes por empresas de gestão que administram dezenas de frações espalhadas por vários prédios, sem qualquer ligação ao bairro. É este segundo modelo que mais pressiona o mercado de arrendamento e que menos devolve à economia local em termos de emprego fixo — a limpeza e a manutenção são frequentemente subcontratadas a preços apertados, e o valor gerado sai da cidade quase tão depressa como entra.

Onde a cidade ainda respira em agosto

Quem quer continuar a gostar de Lisboa e do Porto em pleno verão sem enfrentar as filas tem alternativas dentro das próprias cidades. Em Lisboa, bairros como Arroios, Anjos ou Alvalade mantêm uma vida de bairro muito mais intacta, com mercados de rua, tabernas e horários que não giram em torno de check-ins. No Porto, subir até ao Bonfim ou a Campanhã tira o visitante do circuito fotográfico da Ribeira sem o afastar do centro. Para quem quer mesmo escapar à cidade, um comboio regional para Sintra fora das horas de ponta, ou uma tarde em Cascais pelo lado da praia da Rainha, longe da marginal principal, continuam a oferecer o litoral sem a multidão do centro histórico.

O que está em cima da mesa

Associações de moradores em Lisboa e no Porto têm pedido, com insistência crescente, um travão mais duro aos novos registos e regras mais apertadas para a gestão profissionalizada de múltiplas unidades pelo mesmo operador. Do lado oposto, associações do setor do Alojamento Local defendem que a atividade sustenta milhares de postos de trabalho indiretos — desde a limpeza à manutenção, passando pela restauração de proximidade — e que travar novos registos apenas empurra o preço da habitação existente ainda mais para cima, sem resolver o problema de fundo da falta de oferta. Entre as duas posições, o que é certo é que o debate deixou de ser teórico: já mudou a paisagem de bairros inteiros, e vai continuar a moldar o que resta deles nos próximos verões.