aldeias de Portugal

Trancoso: muralhas, judiaria e as trovas do Bandarra

Trancoso: muralhas, judiaria e as trovas do Bandarra

Entra-se em Trancoso por uma porta de pedra e há um momento, logo a seguir ao arco, em que o ruído da estrada fica do lado de fora. A Porta d'El-Rei guarda a vila como há séculos, e poucos passos depois as ruas estreitas começam a subir entre casas de granito que aquecem ao sol da Beira Alta. É uma daquelas vilas a que se chega quase por engano, a meio caminho entre Guarda e Vila Nova de Foz Côa, e que merece muito mais do que a paragem de meia hora que a maioria lhe dá.

Andar dentro das muralhas

O perímetro amuralhado ainda fecha quase toda a vila antiga, e dá para perceber porquê: Trancoso esteve sempre na linha da frente das contendas entre Portugal e Leão, e o castelo, no ponto mais alto, vigiava a raia. Vá a pé, sem pressa, deixe-se perder. Vai dar com a Porta do Prado, com cantos onde o granito tem inscrições antigas, com largos silenciosos onde só se ouve um cão a ladrar ao longe. Suba à zona do castelo ao fim da tarde — a luz rasante sobre os planaltos da Beira justifica a subida, e raramente há mais do que meia dúzia de pessoas lá em cima.

A judiaria é o que dá a Trancoso uma camada a mais. Esta foi uma das comunidades judaicas mais importantes do interior antes do édito de expulsão de 1496, e as ruas guardam ainda portas com duas entradas — a maior para a casa, a estreita para a loja — e símbolos gravados nas vergas. A Casa do Gato Preto, com a sua fachada brasonada invulgar, é o exemplo mais fotografado, mas vale mais reparar nas marcas discretas espalhadas pela malha urbana do que correr atrás de um único edifício.

O sapateiro que se fez profeta

Trancoso deu ao país uma figura curiosa: Gonçalo Anes, o Bandarra, sapateiro do século XVI cujas trovas proféticas alimentaram séculos depois o mito sebastianista. As suas quadras enigmáticas foram lidas e relidas, e ainda hoje o nome do Bandarra aparece ligado à vila. É história a sério, não folclore inventado — e dá uma boa desculpa para uma conversa com quem lá vive.

Se procura onde comer, fique pelos petiscos da Beira: a vitela e o cabrito assado são apostas seguras, e o pão da região é dos melhores do país.

Quando ir e o que ter em conta

O inverno na Beira Alta é frio e seco, com noites geladas — leve roupa quente se for em janeiro, porque o granito não perdoa. Em compensação, vai ter a vila quase só para si. A Feira de São Bartolomeu, em agosto, enche tudo e muda completamente a experiência; se quer sossego, evite-a. Não há comboio até Trancoso, por isso conte com carro próprio ou com os autocarros regionais a partir da Guarda, que são poucos e exigem planeamento.

Uma última coisa: pode apanhar nevoeiro cerrado de manhã, e nesses dias a vista do castelo desaparece por completo. Vale a pena ficar a dormir e tentar a sorte ao segundo dia.