A estrada que sobe de Lousã para a serra tem curvas a mais para quem enjoa, mas vale cada uma. A meio da subida, depois do Santuário da Senhora da Piedade, o asfalto deixa de fazer sentido e aparece o desvio para Talasnal — um aglomerado de casas de xisto agarradas à encosta como se tivessem crescido da própria pedra. Quem chega ao fim de semana de verão encontra um parque de estacionamento cheio e mesas de petiscos. Quem chega numa terça-feira de novembro encontra silêncio, fumo de lareira e os castanheiros a largar as folhas.
Talasnal, a mais conhecida (e porquê)
Talasnal foi a primeira destas aldeias do xisto a renascer. Esteve quase abandonada e hoje tem casas recuperadas para alojamento, um ou dois sítios para comer e ruelas estreitas onde dois adultos mal passam ombro a ombro. É bonito precisamente porque ninguém endireitou nada: as escadas são tortas, os telhados desnivelados, as portas baixas. Vá a pé desde o parque — são poucos minutos e o carro não cabe lá dentro de qualquer forma.
Coma uma tigelada ou umas chanfanas se aparecerem na ementa, e prove o licor de castanha, que aqui não é folclore: a serra da Lousã vive de castanheiros há séculos.
Para lá da multidão: Casal Novo, Chiqueiro, Cerdeira
O erro é ficar só por Talasnal. A poucos quilómetros estão Casal Novo, Chiqueiro e Cerdeira, e qualquer uma delas tem menos gente e o mesmo xisto. Cerdeira transformou-se numa espécie de aldeia de artistas, com ateliês e um festival no outono; Casal Novo é a mais nua e crua, quase intacta. Há um trilho pedestre, a Rota das Aldeias do Xisto, que liga várias delas a pé por entre o arvoredo — se tiver meio dia e pernas, faça pelo menos o troço entre Talasnal e Casal Novo.
E há a praia fluvial. A Senhora da Piedade tem uma das piscinas naturais mais fotografadas do país, com a cascata e o casario encostado à rocha. No verão está apinhada; em maio ou setembro tem-se quase só para si, ainda que a água gele os tornozelos.
Quando ir, na prática
O outono é a minha recomendação firme: castanhas, cor, e os fins de semana de magusto a cheirar a fumo. O verão é quente e cheio. O inverno fecha-se em nevoeiro — e aqui está a parte honesta: a serra da Lousã apanha nevoeiro com frequência, e há dias em que não se vê a aldeia do outro lado do vale. Se for nesses dias, leve um casaco a sério e aceite que a vista ficou para outra vez.
- Estacione em baixo e suba a pé — as ruas de Talasnal não são para carros.
- Reserve alojamento com antecedência: as casas de xisto recuperadas são poucas e enchem nos fins de semana.
- Calce sapatos com sola a sério; o xisto molhado escorrega como sabão.
No regresso, pare no miradouro sobre o vale ao fim da tarde. A luz baixa entra de lado e a ardósia fica cor de bronze.