Aldeias Históricas de Portugal

Sortelha: a noite em que a aldeia murada fica só para si

Sortelha: a noite em que a aldeia murada fica só para si

Quando o último carro de visitantes desaparece estrada abaixo, Sortelha muda de respiração. As muralhas de granito ficam a guardar uma dúzia de casas, o vento assobia entre as ameias e percebe-se uma coisa simples: para entender uma aldeia muralhada, é preciso dormir lá dentro.

Pedra sobre pedra, fora do tempo

Sortelha está plantada num cabeço de granito na Beira Interior, perto do Sabugal, e o casario inteiro é da cor da rocha que o rodeia. As ruas sobem por entre penedos arredondados, os mesmos que servem de alicerce às casas e, por vezes, de muro. Lá no alto, o castelo medieval e a cintura de muralhas abrem-se sobre a serra — dá para dar a volta às muralhas a pé, com o devido cuidado, porque os parapeitos são irregulares e o chão também.

Não há trânsito, não há montras, não há ruído de fundo. Há o som dos próprios passos na laje, o ranger de uma porta de madeira, e o silêncio espesso que só os sítios altos e de pedra conseguem produzir. É raro, hoje em dia, e é por isto que se vem.

Dormir dentro das muralhas

Há casas de turismo rural recuperadas dentro do recinto histórico, em granito, com lareira. Reserve uma. A diferença entre passar por Sortelha e ficar uma noite é total: ao fim da tarde os autocarros vão-se, e fica a aldeia, os gatos, e quem teve a paciência de ficar. De manhã, antes do nevoeiro levantar, as muralhas surgem e desaparecem como num sonho.

Fora de época — outono, inverno — é quando a aldeia melhor se entrega. Mas seja honesto consigo mesmo: faz frio, frio a sério, e há serviços que fecham. Leve roupa quente e confirme antes que o restaurante onde conta jantar está aberto, porque pode não estar.

Comer à moda da serra

A cozinha aqui é de inverno: ensopados, cabrito, enchidos curados ao fumo, queijo da Beira. Acompanhe com um tinto da região. E reserve mesa, porque os lugares são poucos e fora de época abre-se pouco — telefonar de véspera evita ficar a olhar para portas fechadas dentro de uma aldeia onde, à noite, não há mais nada.

Saia depois de jantar e olhe para cima. Sem iluminação a estragar o céu, as estrelas caem-lhe em cima das muralhas.