Minho

Sistelo, o tal "pequeno Tibete", e por que o nome quase não chega

Sistelo, o tal "pequeno Tibete", e por que o nome quase não chega

Alguém, algures, decidiu chamar a Sistelo "o pequeno Tibete português", e o apelido pegou. É injusto e é certeiro ao mesmo tempo. Injusto porque Sistelo não precisa de comparações; certeiro porque, quando se olha do alto para os socalcos verdes a descerem em degraus até ao rio Vez, percebe-se exatamente de onde veio a ideia.

Socalcos feitos à mão, geração após geração

Estamos em Arcos de Valdevez, no Alto Minho, numa encosta esculpida ao longo de séculos. Os lameiros — prados húmidos onde pasta o gado — sobem em terraços sustidos por muros de pedra seca, e a água corre por canais que alguém abriu há muito e que alguém continua a manter. Não é paisagem de postal congelada: é terra trabalhada, viva, onde ainda se vê uma vaca cachena de chifres enormes a pastar onde os antepassados a puseram.

O melhor sítio para apanhar tudo de uma vez é o miradouro junto ao castelo de Sistelo — que de castelo medieval tem pouco, é antes um palacete oitocentista de aspeto romântico, mas a vista que dá compensa a confusão de nomes.

O trilho à beira do Vez

Há um percurso pedestre que segue o rio Vez por passadiços e caminhos de pedra, ligando aldeias da freguesia. É plano em boa parte, faz-se em família, e leva-o por entre os socalcos em vez de os ver só de longe. Pelo caminho cruzam-se levadas, pontes de pedra e moinhos antigos, e o som da água acompanha-o quase o percurso inteiro. Calce ténis com piso de aderência: os passadiços ficam escorregadios depois da chuva, e no Minho chove com frequência.

Vá na primavera ou no início do outono. No verão, o verde dos socalcos seca um pouco; nos meses frios, o nevoeiro do vale pode tapar-lhe a vista durante horas. É o risco do Minho — lindíssimo, exceto quando não se vê nada.

Antes de subir a serra

Arcos de Valdevez, a vila ali ao lado, é boa base: tem onde comer e dormir, fica à beira do rio Vez e serve de porta de entrada também para a serra da Peneda. Prove o cabrito e os enchidos minhotos, beba um vinho verde da casa, e não tenha pressa de ir embora. Sistelo recompensa quem fica para o fim da tarde, quando a luz desce de lado e cada muro de pedra ganha sombra própria.