Toda a gente sobe à Torre para ver neve, tira a fotografia ao marco do ponto mais alto de Portugal continental e mete-se na fila para descer. Eu faço o contrário: deixo a Torre para trás e desço para Manteigas, no fundo do vale do Zêzere, onde a serra é mais funda e quase ninguém para.
O vale glaciar do Zêzere, em forma de U
O vale do Zêzere é um manual de geologia ao ar livre: uma língua de gelo escavou-o há milhares de anos e deixou aquele perfil largo, em forma de U, que se vê tão bem da estrada que liga Manteigas a Gouveia. Pare no miradouro a meio da subida. No inverno, com as encostas polvilhadas de neve e o rio lá no fundo, é das paisagens mais limpas que o país tem para dar — e quase de graça, porque ninguém para ali.
Manteigas, no fundo do vale, é uma vila de montanha a sério, com casas de granito, fumo nas chaminés e uma quietude que a Torre nunca terá. Use-a como base.
O que fazer (e a parte honesta sobre a neve)
Aqui vai o aviso que os folhetos não dão: a neve na Serra da Estrela é imprevisível. Há invernos em que cai forte e a estrada da Torre fecha por causa do gelo; há outros em que mal branqueia. Não venha de longe a contar com um manto de neve garantido. Venha pela serra, e se houver neve é prémio.
Com neve, há a pequena estância de esqui junto à Torre — modesta, muitas vezes cheia e dependente das condições. Sem neve, a serra é toda sua para caminhar. Procure o Poço do Inferno, uma cascata perto de Manteigas que no inverno por vezes congela nas margens. E há termas: o Termas de Manteigas fica ali ao lado, e há nada melhor do que água quente depois de um dia de frio cortante.
À mesa e na estrada
Coma queijo da Serra da Estrela onde ele nasce — o amanteigado, de ovelha, comido à colher na côdea aberta. Acompanhe com pão de centeio e um tinto da Beira. Para conduzir, leve correntes ou pneus preparados se houver previsão de neve; a estrada do alto da serra gela e a GNR corta-a sem aviso quando é preciso.
- Base em Manteigas, não na Torre — mais barato, mais bonito, mais calmo.
- Verifique as condições da estrada da Torre antes de subir; pode estar cortada.
- Leve roupa por camadas: o vale ao sol e o cume ao vento são dois climas diferentes.
Ao fim da tarde, com o vale a ficar azul e o rio invisível lá no fundo, percebe-se que a Torre era só o postal. O resto da serra é a viagem.