A água do Portinho da Arrábida tem uma cor que custa a acreditar em pleno Portugal continental: verde-turquesa, transparente, com a serra a cair quase a pique para a areia. Em agosto, isto enche-se ao ponto de fecharem o acesso de carro. Em maio ou junho, ainda se respira — e é essa a janela que vale a pena guardar.
A serra que cai para o mar
O Parque Natural da Arrábida estende-se entre Setúbal e Sesimbra, a sul de Lisboa, e é um daqueles raros sítios onde a montanha mediterrânica encontra o Atlântico. A estrada que atravessa a serra, a antiga estrada da Arrábida, abre-se de repente para miradouros sobre a baía, com a água lá em baixo a mudar de tom conforme a profundidade. As praias mais conhecidas — Portinho da Arrábida, Galápos, Galapinhos — têm areia clara e mar abrigado, muito mais calmo do que o resto da costa portuguesa.
No meio da encosta, escondido entre o arvoredo, está o Convento da Arrábida, um antigo convento franciscano com as suas pequenas ermidas brancas espalhadas pela serra. Visita-se com marcação e a vista do alto sobre o mar fica na memória mais do que qualquer fotografia.
Sesimbra, vila de pescadores
Do outro lado da serra, virada a sul, Sesimbra mantém o ar de vila piscatória que muitas terras da costa já perderam. O peixe chega ao porto de manhã e nos restaurantes da marginal serve-se peixe grelhado simples — o peixe-espada-preto é a especialidade da casa. Acima da vila, o castelo medieval domina tudo, e a leste fica o Cabo Espichel, com o seu santuário isolado no fim do promontório e as falésias onde há pegadas de dinossauros à vista de quem souber procurar.
Como visitar sem o caos do verão
O segredo é a altura do ano. De julho a meados de setembro, o acesso de carro às praias da Arrábida é condicionado, com a estrada cortada nos dias de mais movimento e transporte obrigatório a partir de Setúbal. Antes disso, em maio e junho, ainda se chega de carro com relativa folga — mas vá de manhã cedo, porque os parques de estacionamento são minúsculos e enchem.
- De Lisboa, chega-se de carro em pouco mais de meia hora pela ponte 25 de Abril; sem carro, há autocarro para Sesimbra e para Setúbal.
- A água é fria mesmo no início do verão — o Atlântico não engana, por mais turquesa que pareça.
- Leve comida e água; nas praias da serra a oferta é escassa e cara.
Recomendação sem rodeios: faça Portinho de manhã, almoce peixe em Sesimbra e guarde o fim da tarde para o Cabo Espichel, quando os autocarros já se foram embora e fica só o vento, o santuário vazio e o oceano em frente. Se apanhar nortada forte, no entanto, a Arrábida abrigada agradece-se — é dos poucos sítios onde o vento de norte não estraga o dia de praia.