O choque é sempre o mesmo na última curva da estrada: uma encosta inteira coberta de telhados de ardósia, como se alguém tivesse despejado escamas de peixe pela Serra do Açor abaixo. Piódão não se anuncia. Aparece de repente, do outro lado do vale, e fica-se ali parado a olhar antes de descer até ela.
Por que é que tudo aqui é da mesma cor
As casas são de xisto, a pedra que a serra dá de graça, e quase todas as portas e janelas foram pintadas do mesmo azul. Conta-se que houve uma altura em que o único pigmento disponível na mercearia da aldeia era o azulão de tingir roupa — e por isso a aldeia ficou monocromática. Verdade ou não, o efeito é real: ruas estreitas de pedra escura, todas a subir e a descer, com molduras azuis que se repetem casa após casa. A igreja matriz, branca e de linhas curvas, destaca-se no meio disto como uma exceção deliberada.
Anda-se a pé e nada mais. Os carros ficam no parque à entrada e quem sobe pelos becos percebe depressa porquê: há degraus a meio das ruas, há cantos onde mal passa uma pessoa, e o chão de laje brilha quando chove. Calce sapato com sola a sério.
Quando ir, e porquê o outono compensa
Vá no outono. Os castanheiros à volta mudam de cor, o ar fica limpo depois das primeiras chuvas e a aldeia esvazia-se dos autocarros de verão. Ao fim da tarde, com o sol baixo a bater no xisto, a pedra acende-se num tom acobreado e o azul das janelas fica quase elétrico — daí o título. É o momento de subir ao miradouro acima da aldeia, onde se vê o casario inteiro de uma só vez.
Há um senão. A estrada de acesso, vinda de Arganil ou de Coja, é estreita, com curvas apertadas e nevoeiro frequente nas manhãs frias. Não tenha pressa e evite conduzir ao escurecer. Se apanhar nevoeiro cerrado, espere meia hora num café — costuma levantar.
Comer e dormir sem complicar
A comida da zona é de montanha, sem rodeios: cabrito, chanfana, enchidos, mel da serra. Há algumas casas rurais recuperadas dentro e à volta da aldeia, em xisto, e uma noite passada aqui muda completamente a visita — de manhã cedo, antes dos primeiros visitantes, Piódão é só sua e dos gatos.
Leve dinheiro trocado, água, e a paciência de quem aceita que aqui o telemóvel ora apanha rede ora não. É essa a graça.