Em Braga, o termómetro passou dos 36°C num sábado de julho, e a fila para o gelado na Avenida Central dava a volta ao quarteirão duas vezes. A quarenta minutos dali, em Ermida, um grupo de miúdos saltava de uma pedra lisa para a água esverdeada da Cascata da Mizarela, gritando de frio antes mesmo de tocar na superfície. Ninguém ali se lembrava do calor da cidade. É essa a promessa do Parque Nacional da Peneda-Gerês em pleno verão: a poucos quilómetros do litoral sobrelotado e do interior a arder, existe uma zona do país onde a água ainda desce fria da serra, mesmo em agosto.
Um parque com quase 700 km² e zero explicações turísticas
Criado em 1971, o Peneda-Gerês é o único parque nacional de Portugal — todos os outros dezassete territórios protegidos do país têm estatuto de parque natural, reserva ou paisagem protegida, categorias com regras de conservação mais permissivas. Estende-se por quase 700 km² entre os concelhos de Melgaço, Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Terras de Bouro e Montalegre, colado à fronteira espanhola, onde continua do outro lado como Parque Natural Baixa Limia-Serra do Xurés. Em 2009, os dois territórios foram reconhecidos pela UNESCO como Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés, um reconhecimento que reflete décadas de gestão partilhada entre Portugal e Espanha e que poucos visitantes de um dia sequer percebem que existe. Dentro destas fronteiras cabem quatro serras — Peneda, Soajo, Amarela e Gerês —, dois rios principais e uma dúzia de aldeias que ainda vivem, em parte, do sistema de pastagem comunitária conhecido como baldio. Muitas dessas aldeias mantêm regras de uso da terra que remontam à Idade Média, geridas em conselho de vizinhos e não por qualquer câmara municipal. É uma paisagem que resistiu porque foi difícil de urbanizar, não porque alguém a tenha planeado para o turismo, e isso nota-se em cada curva da estrada de montanha que liga Campo do Gerês a Lindoso.
Como chegar sem perder a viagem toda na estrada
Do Porto, a viagem até Campo do Gerês, a vila que funciona como base para a maioria das excursões, demora cerca de uma hora e vinte minutos pela A3 e depois pela N308, e vale a pena fazer o troço final com calma — a estrada estreita-se depois de Braga e ganha curvas fechadas que não perdoam pressa. De Lisboa, conte com quase quatro horas e meia de carro. Não há transporte público que sirva bem o interior do parque: os autocarros ligam Braga a Campo do Gerês uma ou duas vezes por dia, mas para chegar às cascatas e aos trilhos vai mesmo precisar de carro próprio ou de um dos passeios de jipe organizados localmente, que rondam os 35 a 45 euros por pessoa.
As cascatas e os poços que valem o desvio
A Cascata da Mizarela não é a mais fácil de alcançar — e é exatamente por isso que continua fria e limpa em agosto.
Com uma queda de cerca de 35 metros junto à aldeia de Ermida, a Mizarela é uma das cascatas mais altas de Portugal, e o poço que se forma na base mantém-se frio o ano inteiro, mesmo quando o ar ronda os 30°C. O acesso faz-se a pé, por um trilho de cerca de 40 minutos que desce entre carvalhos, e os últimos metros exigem alguma atenção às pedras molhadas. Mais popular — e por isso mais cheio nos fins de semana de julho e agosto — é o conjunto de poços junto à Cascata do Arado, perto da fronteira com Espanha, onde a água da barragem desce em socalcos naturais de granito que os visitantes apelidaram, informalmente, de Tahiti. Chegue antes das 10h se quiser um lugar na pedra ao sol sem disputar espaço com uma dezena de toalhas.
Nem todos os poços do parque são seguros, e vale a pena dizê-lo sem rodeios: o ICNF interditou o acesso a alguns pontos junto a barragens depois de afogamentos registados nos últimos anos, sobretudo em zonas onde a corrente aumenta de repente com a abertura de comportas a montante. Evite os poços junto às barragens ao fim da tarde, quando o caudal pode subir sem aviso. Antes de saltar para qualquer poço que não conheça, pergunte a alguém do café mais próximo se aquele ponto está a ser vigiado ou se já houve incidentes — a informação corre depressa nas aldeias pequenas, e um copo de vinho verde costuma soltar a língua a quem sabe.
Cavalos garranos: a fauna que não precisa de zoo
O garrano é um cavalo pequeno, de pelagem escura e crina desgrenhada, nativo do noroeste ibérico, e vive em semiliberdade dentro do parque há séculos — ninguém precisa de o alimentar ou de lhe abrir uma cerca, porque ele já está em casa. Estima-se que existam hoje poucas centenas de garranos a viver livremente dentro do parque, um número que já esteve mais alto antes de décadas de caça e de perda de habitat, e que hoje depende diretamente da gestão feita pelo ICNF. As maiores probabilidades de o avistar concentram-se na Mata de Albergaria, uma floresta de carvalhos protegida entre Portela do Homem e Rio Caldo, e nas encostas da Serra Amarela, onde as manadas pastam livremente e ajudam, sem saber, a prevenir incêndios ao manterem o mato baixo. Não se aproxime a menos de dez metros, mesmo que pareçam mansos — são animais selvagens, não atração de parque temático, e há éguas que defendem as crias com coices capazes de partir ossos. A melhor recompensa vem de quem tem paciência: sente-se junto à estrada que atravessa a Mata de Albergaria ao final da tarde, desligue o motor do carro, e espere. Mais cedo ou mais tarde, um grupo atravessa a estrada sem pressa nenhuma, como se soubesse que ali manda ele.
Trilhos para quem quer caminhar, não só nadar
O parque tem mais de trinta percursos pedestres homologados pelo ICNF, mas três cobrem praticamente tudo o que um visitante de fim de semana precisa. O PR4, conhecido como Trilho dos Currais, liga Ermida a Cabril ao longo de cerca de 8 km e atravessa antigos currais de pastoreio em granito, hoje abandonados, que parecem ruínas de uma aldeia que nunca chegou a nascer. O Miradouro da Pedra Bela, a uns vinte minutos de carro de Campo do Gerês, exige menos esforço — um curto passeio a pé desde o parque de estacionamento — e devolve, em troca, uma vista sobre a albufeira de Vilarinho das Furnas que aparece em metade das fotografias que se veem sobre o parque. Para caminhantes mais preparados, o trilho até Pitões das Júnias soma cerca de 12 km ida e volta, com um desnível que se sente sobretudo na subida de regresso, e recompensa o esforço com o mosteiro em ruínas e uma cascata quase sempre deserta.
Leve sempre mais água do que pensa precisar, mesmo nos trilhos mais curtos. O calor entre as pedras de granito, sem sombra direta em vários troços, sobe rapidamente depois das 11h, e o sinal de telemóvel desaparece em boa parte da Serra Amarela — não conte com o GPS do telefone para o tirar de um trilho mal assinalado.
Aldeias de xisto e granito onde o tempo não tem pressa
Três aldeias justificam sozinhas um dia inteiro de viagem, cada uma por um motivo diferente. Sistelo, conhecida informalmente como o Tibete português, mostra socalcos de cultivo esculpidos ao longo de séculos nas duas margens do rio Vez, um sistema de rega tão antigo que ainda usa canais de pedra construídos antes de qualquer mapa turístico existir. Soajo e Lindoso guardam os conjuntos de espigueiros mais fotografados do país — celeiros de granito erguidos sobre pilares para proteger o milho da humidade e dos ratos, ainda em uso por algumas famílias locais, apesar de o turismo já ter percebido o seu valor estético. Se só tiver tempo para uma aldeia, escolha Lindoso: os espigueiros junto ao castelo medieval compõem, sozinhos, a imagem mais reconhecível de todo o parque. E depois há Pitões das Júnias, isolada perto da fronteira com Trás-os-Montes, onde as ruínas de um mosteiro cisterciense do século XIII ficam a apenas dez minutos a pé de outra cascata menos conhecida — a maioria dos visitantes de Lindoso nunca chega até aqui, o que já diz alguma coisa sobre o que perdem.
Onde dormir sem sair do parque
Dormir dentro dos limites do parque tem uma regra clara: acampar só é permitido em parques de campismo licenciados, como o Parque de Campismo do Vidoeiro, em Campo do Gerês, com diárias a rondar os 15 a 20 euros por duas pessoas e tenda em época alta. Fora dessas zonas, o ICNF proíbe montar tenda ou fazer fogueiras entre junho e setembro, uma restrição que existe por boas razões — grande parte do parque ardeu em 2017 e voltou a arder, em menor escala, em anos seguintes. Para quem prefere um teto e um colchão de verdade, Campo do Gerês concentra a maior oferta de alojamento local, com quartos duplos a partir de 60 euros na época alta, enquanto Termas do Gerês, quinze minutos a norte, junta ao alojamento umas águas termais conhecidas desde a época romana.
O que levar e o que evitar
Antes de sair de casa, prepare a mochila para pelo menos isto, ainda que a lista continue a crescer consoante a estação e o trilho escolhido:
- Calçado com boa aderência — o granito molhado das cascatas escorrega mais do que parece.
- Protetor solar, mesmo debaixo das árvores da Mata de Albergaria.
- Água a mais, não a menos: as fontes naturais nem sempre estão assinaladas nos mapas oficiais do ICNF.
- Uma muda de roupa seca para depois do banho gelado no poço — a maioria dos visitantes de primeira viagem esquece isto, e arrepende-se no caminho de volta ao carro.
Há quem chegue a Peneda-Gerês à procura de uma fotografia parecida com as que já viu nas redes sociais, e saia dali com outra coisa: uma manada de garranos a atravessar a estrada ao pôr do sol, um copo de vinho verde bebido descalço junto a um poço gelado, ou simplesmente o silêncio de uma aldeia onde ninguém está com pressa. Nenhuma dessas coisas se agenda com antecedência. Aparecem, ou não aparecem — e é precisamente essa incerteza que falta ao resto do litoral em agosto.