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Peneda-Gerês: o único parque nacional de Portugal ainda guarda currais de pedra e uma aldeia que a seca faz reaparecer

No único parque nacional de Portugal, currais de pedra, espigueiros centenários e uma aldeia que a seca ainda devolve em pleno Verão — um roteiro para conhecer o Peneda-Gerês fora da azáfama do litoral em agosto de 2026.

Peneda-Gerês: o único parque nacional de Portugal ainda guarda currais de pedra e uma aldeia que a seca faz reaparecer

São seis da manhã em Soajo e a estrada de terra vibra sob os pneus quando um garrano atravessa devagar, sem pressa nenhuma, como se o carro fosse ali o intruso. Mais acima, recortados contra o granito ainda frio da noite, os vinte e quatro espigueiros da aldeia alinham-se como uma fila de sentinelas de pedra, o mais antigo datado de 1782. Ninguém avisa que o Parque Nacional da Peneda-Gerês recebe assim quem chega cedo demais — e é precisamente esta mistura de silêncio, granito e animais que ainda vagueiam livres que o distingue de qualquer outra área protegida do país. Portugal tem dezenas de reservas naturais, parques naturais e paisagens protegidas espalhadas de norte a sul, mas apenas um parque nacional: este, criado em 1971, com cerca de 700 quilómetros quadrados repartidos por cinco serras — Peneda, Soajo, Amarela, Gerês e Larouco. Desde 2009 que a UNESCO reconhece esta faixa de território, unida ao Parque Natural Baixa Limia-Serra do Xurés do lado galego, como Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés, quase 268 mil hectares partilhados entre cinco concelhos portugueses e seis espanhóis. E há ainda outra camada que poucos turistas conhecem: o sistema de brandas e inverneiras, aldeias duplicadas em altitudes diferentes para onde as famílias se mudavam consoante a estação, ocupando as terras altas no verão e recolhendo-se aos vales protegidos no inverno.

Em agosto, o parque enche-se de gente à procura de sombra, água fresca e uma paisagem que ainda não apareceu mil vezes no telemóvel de toda a gente. Encontra-se aqui o garrano, o pónei semisselvagem que dá nome ao cavalo típico da região, a par da cabra-brava e da vaca cachena — raças autóctones que sobrevivem porque a serra ainda impõe as suas próprias regras. Também o lobo-ibérico ronda estas encostas, embora avistá-lo seja mais promessa do que garantia. O calor do interior norte costuma instalar-se acima dos trinta graus nas tardes de agosto, o que torna as manhãs cedo — como aquela em Soajo — o momento certo para percorrer trilhos, deixando as poças de água fria para o meio do dia.

Soajo e Lindoso: quando os celeiros substituem os monumentos

Ninguém fala do cheiro.

É madeira antiga, feno seco e granito aquecido pelo sol da tarde — a combinação que fica na memória muito depois de teres esquecido a forma exacta dos telhados. Os espigueiros de Soajo formam uma eira comunitária assente diretamente sobre um afloramento de granito, vinte e quatro construções em fila que serviam para secar e guardar o milho longe da humidade do solo e da voracidade dos roedores, a mais antiga datada de 1782. Nenhum deles tem porta ao nível da rua — sobem-se por pequenas escadas de pedra soltas, e as fendas estreitas nas paredes deixam o vento circular sem deixar entrar a chuva. É uma resposta direta ao clima, não um capricho estético, e por isso continua a funcionar praticamente da mesma forma desde o século XVIII.

A quinze minutos de carro, Lindoso guarda um conjunto ainda maior: mais de sessenta espigueiros junto ao castelo medieval, a maior concentração deste tipo de construção em toda a Península Ibérica. Ao contrário dos de Soajo, inteiramente em granito, alguns dos espigueiros de Lindoso têm as laterais em ripado de madeira, o que lhes dá um aspeto ligeiramente diferente à luz do fim de tarde. Melhor opção: chega depois das seis da tarde, quando os autocarros de turismo já partiram e a luz rasante acende o granito de um tom quase alaranjado — de manhã, com o parque de estacionamento cheio, a experiência perde metade do encanto. Vale ainda subir ao castelo do século XIII, reconstruído sobre fortificações mais antigas: do topo, os espigueiros parecem um exército de pedra parado a meio de uma manobra.

As poças que continuam frias em pleno agosto

A Portela do Homem marca a fronteira entre Portugal e Espanha a 822 metros de altitude, a cerca de onze quilómetros da vila do Gerês pela estrada N308-1. O rio Homem forma ali uma piscina natural entre rochas graníticas polidas por séculos de erosão, com zonas que ultrapassam os quatro metros de profundidade e uma água de um verde-azulado que parece pintado. Não há cafés nem quiosques junto à cascata — o apoio mais próximo fica já do lado espanhol, a cerca de um quilómetro da fronteira — por isso convém levar comida e água suficientes para o dia inteiro.

A água esverdeada convida a mergulhar de cabeça; não o faças. As rochas polidas escondem zonas escorregadias e a profundidade muda de um passo para o outro sem qualquer aviso, e todos os anos há acidentes que só aconteceram porque alguém confundiu uma piscina bonita com uma piscina municipal. Entra devagar, pelos bordos, e deixa o salto para quem já conhece o fundo.

Do outro lado do parque, perto da barragem de Vilarinho das Furnas, a Cascata do Arado oferece outra versão do mesmo prazer, mas com uma condição: uma cancela bloqueia a estrada a partir de certo ponto e só residentes, apicultores e viaturas do ICNF podem passá-la. Quem chega de fora estaciona junto ao Miradouro das Rocas e caminha cerca de um quilómetro por caminho de terra até à cascata — o trilho completo até ao Poço Azul, mais acima, ronda os nove quilómetros. Não vale a pena tentar entrar de carro além da cancela: os guardas do parque conhecem bem quem tenta a sorte, e a multa não compensa o atalho.

Vilarinho das Furnas: a aldeia que a seca devolve

Em fevereiro de 1971, cinquenta e sete famílias deixaram para trás as suas casas em Vilarinho da Furna para dar lugar à barragem que hoje tem 94 metros de altura e um coroamento em arco de 385 metros. A aldeia, com séculos de vida comunitária organizada em regime de baldio, desapareceu debaixo de água — mas não por completo. Em anos de seca mais acentuada, como aconteceu no verão de 2022, o nível da albufeira desce o suficiente para deixar à vista casario em granito, muros e caminhos que continuam exatamente onde os últimos moradores os deixaram.

Não é preciso esperar por uma seca histórica para sentir a atmosfera do lugar: o Museu Etnográfico de Vilarinho das Furnas, junto à albufeira, reconstrói a vida da aldeia com objetos recolhidos antes da inundação, e a entrada custa entre um e dois euros, aberto todos os dias das 8h30 às 12h30 e das 13h30 às 17h00. É pouco tempo, é barato, e é provavelmente a forma mais direta de perceber o que ficou submerso antes de veres o resto do parque a partir de fora.

Trilho dos Currais: caminhar por onde ainda passa a vezeira

O PR3 TBR, conhecido como Trilho dos Currais, parte do Parque de Campismo do Vidoeiro, na vila do Gerês, e percorre dez quilómetros de dificuldade média a elevada ao longo de cerca de quatro horas. Pelo caminho cruzam-se três currais históricos do baldio de Vilar da Veiga — o Curral da Espinheira, o Curral da Carvalha das Éguas e o Curral da Lomba do Vidoeiro — construções de pedra onde ainda hoje se recolhe o gado durante a vezeira, a prática comunitária que leva as vacas da comunidade até à serra alta entre maio e setembro.

  • Leva pelo menos dois litros de água por pessoa — não há fontes fiáveis a meio do percurso.
  • Calçado de trilho com boa aderência, porque o granito polido fica traiçoeiro depois de chuva recente.
  • Protetor solar reaplicado a meio do trajeto, já que boa parte do percurso atravessa zonas sem qualquer sombra.
  • E, já agora, um chapéu — parece óbvio, mas é o item que mais gente esquece em casa.

Quem prefere uma versão mais longa pode seguir a variante que passa pela Sepultura do Frade até Pedrogo, mas convém reservar um dia inteiro e partir com luz de manhã, porque o troço final fica exposto e o calor de agosto não perdoa quem começa depois do meio-dia.

Informação prática para visitar em agosto de 2026

O acesso ao parque está sujeito a algumas regras que vale a pena confirmar antes da viagem, sobretudo se viajares em grupo. Grupos com mais de dez pessoas precisam de autorização prévia do ICNF para percorrer trilhos dentro da Zona de Proteção Parcial de Tipo I, pedida por email com hora de início, hora prevista de fim, número de participantes e um ficheiro com o trajeto previsto. Desde 2007 existem ainda taxas de acesso automóvel a certas zonas da reserva, pensadas para limitar o tráfego de carros e proteger os ecossistemas mais sensíveis. Nada disto atrapalha quem vem apenas para caminhar ou nadar, mas é bom saber antes de planear um roteiro pensado só à volta do carro. Julho e agosto trazem ainda risco elevado de incêndio, o que pode fechar temporariamente alguns acessos sem aviso prévio. Por isso, confirma sempre o estado dos trilhos no site do ICNF na véspera da visita, em vez de confiares apenas no que leste aqui ou nalgum grupo de Facebook desatualizado.

Para dormir, as casas de turismo rural em Soajo, Lindoso e Ponte da Barca custam normalmente entre 60€ e 120€ por noite em época alta, e costumam esgotar com semanas de antecedência em agosto. Há duas portas de entrada que fazem sentido consoante o que procuras: para os espigueiros de Soajo e Lindoso, Arcos de Valdevez e Ponte da Barca funcionam como bases confortáveis, com restaurantes abertos até mais tarde e ligação direta às aldeias por estrada municipal; para a Portela do Homem, a Cascata do Arado e Vilarinho das Furnas, a vila do Gerês e Terras de Bouro ficam mais próximas e poupam facilmente quarenta minutos de estrada de montanha. As duas zonas não se percorrem confortavelmente no mesmo dia — a estrada entre elas serpenteia pela serra e demora mais do que o mapa sugere.

Vais ouvir dizer que agosto é a pior altura para visitar o Gerês, por causa do calor e da lotação dos parques de estacionamento nos fins de semana. Em parte é verdade. Mas é também a única altura em que vês a albufeira de Vilarinho das Furnas descer o suficiente para revelar o que ficou lá em baixo desde 1971 — e isso, por si só, já compensa fugir à época alta dos destinos do litoral.