O mercado de Olhão abre cedo e a esta hora cheira a maresia e a peixe acabado de chegar. Dois pavilhões de tijolo encarnado, à beira da ria, um para o peixe e outro para a fruta e os legumes — é aqui que começa qualquer dia bem feito em Olhão. A vila não tem o brilho de cartão-postal de outras do Algarve; tem outra coisa, que é ser verdadeira.
A vila cubista do Algarve
Olhão cresceu virada ao mar, à pesca e à conserva. O bairro antigo, a Barreta, é um labirinto de casas baixas e brancas de telhados planos, com terraços e açoteias, uma arquitetura que lembra o norte de África e que valeu à vila a fama de "vila cubista". Perde-se ali um bom bocado, entre ruas estreitas onde a roupa seca nas janelas e os gatos dormem ao sol. Não há grandes monumentos; há atmosfera, e a vista dos terraços sobre a ria, com as ilhas ao fundo, paga o esforço de subir.
Os dois mercados, à beira-rio, são o coração da terra. Ao sábado de manhã o movimento aumenta e juntam-se bancas de produtos da serra. Compre figos, amêndoa, peixe se tiver onde o cozinhar — e prove uma conserva, que é o que Olhão fez durante gerações.
De barco para as ilhas
Mesmo em frente ao mercado partem os barcos para as ilhas da Ria Formosa. As mais próximas e ligadas por carreira regular são a Armona e a Culatra, ilhas-barreira sem carros, com aldeias de pescadores, casas de férias modestas e praias enormes do lado do mar aberto. Na Culatra fica o farol do Cabo de Santa Maria, o ponto mais a sul de Portugal continental. São travessias curtas, de poucos minutos a meia hora conforme a ilha e a maré, num cenário de sapais, bancos de areia e aves — a Ria Formosa é um parque natural e um dos zonas húmidas mais importantes do país.
Nas ilhas come-se bem e simples: amêijoas da ria, que aqui se cultivam, peixe grelhado, um copo de vinho branco fresco. Não espere bares de praia chiques; espere tasquinhas com mesas à porta e o barco de regresso a marcar a hora.
Conselhos práticos
- Confirme os horários dos barcos e, sobretudo, o último regresso — fora de verão as carreiras espaçam-se e ficar numa ilha sem alojamento não é plano.
- Olhão tem estação na linha do Algarve, a poucos minutos de comboio de Faro; chega-se sem carro com facilidade.
- Leve dinheiro trocado, água e protetor; nas ilhas a sombra é escassa e nem tudo aceita cartão.
Recomendação firme: faça o mercado de manhã, apanhe o barco para a Armona ou a Culatra a meio da manhã e almoce na ilha. Guarde a Barreta para o regresso, ao fim da tarde, quando o sol baixa sobre os terraços brancos. É um dia inteiro, mas é o jeito certo de conhecer este pedaço de Algarve que a maioria atravessa de autoestrada sem parar.