De noite, em Monsaraz, apaga-se quase tudo. As ruas de calçada e as casas caiadas ficam mergulhadas numa escuridão que, em vez de incomodar, abre o céu: milhares de estrelas sobre o maior lago artificial da Europa Ocidental. Esta vila medieval, pousada num cerro a olhar o Alqueva, tornou-se um dos melhores sítios do país para ver as estrelas — e é só uma das suas faces.
A vila no alto
Monsaraz é pequena e percorre-se em pouco tempo, mas pede-se devagar. Entra-se pela porta da muralha e a rua principal sobe entre casas brancas de uma só altura, com aquele branco caiado tão alentejano que dói nos olhos ao sol. No topo está o castelo, com a sua praça de touros encaixada dentro das muralhas — sim, lá dentro — e do adarve abre-se a vista que justifica a viagem: o Alentejo a perder de vista de um lado, o espelho azul do Alqueva do outro.
A igreja matriz, a antiga audiência com o seu fresco do Bom e do Mau Juiz, as casas senhoriais — tudo cabe num punhado de ruas. É uma vila para olhar pormenores, não para coleccionar monumentos. Sente-se num largo ao fim da tarde e veja a luz mudar sobre a planície; poucas coisas no Alentejo se igualam.
O lago e o céu escuro
O Alqueva nasceu da barragem que represou o Guadiana, criando um lago imenso onde antes havia vale. Hoje dá para passear de barco, nadar nas praias fluviais no verão e até dormir num barco-casa. Mas o que tornou a região verdadeiramente singular foi o reconhecimento como Reserva Dark Sky — uma das primeiras do mundo certificada para o turismo de observação do céu. A ausência de poluição luminosa em redor de Monsaraz faz com que, em noites limpas, se veja a Via Láctea a olho nu.
Há sessões de observação astronómica organizadas na zona, com telescópios e guias. Vá numa noite sem lua cheia, se o que procura é o céu mais negro possível.
Em pleno verão, o Alentejo ferve — e o lago, por mais bonito que seja, não refresca o ar das ruas de Monsaraz ao meio-dia. Programe a vila para o fim da tarde e a noite.
Quando ir e como chegar
A primavera e o outono são ideais: calor suportável, planícies verdes ou douradas, noites já amenas para ficar a olhar o céu. Não há comboio nem grande rede de autocarros; vá de carro, a partir de Reguengos de Monsaraz, e combine com uma visita ao Cromeleque dos Almendres, perto de Évora, se quiser juntar pré-história à viagem. À mesa, fique pela carne de porco preto, pelos queijos e pelo vinho do Alentejo, que aqui se faz à porta.