Alentejo

Mértola: descer ao Guadiana e atravessar dois mil anos a pé

Mértola: descer ao Guadiana e atravessar dois mil anos a pé

Da margem do Guadiana, Mértola levanta-se de uma só vez: o castelo no alto, a igreja logo abaixo, o casario branco a escorrer pela encosta até à água. É uma daquelas vilas que se entende melhor de baixo para cima — e que se percorre, na prática, como quem folheia um livro de história ao contrário.

Uma vila que é, ela própria, o museu

Mértola gosta de se chamar vila-museu, e por boa razão. Aqui o rio Guadiana ainda era navegável na Antiguidade, e por ele subiram fenícios, romanos e, mais tarde, os muçulmanos que fizeram da vila um porto fluvial importante do al-Ândalus. Cada camada deixou marca. A igreja matriz, no alto, foi mesquita antes de ser igreja — repare na planta quadrada, nas colunas, no nicho do mihrab voltado a sudeste, que sobreviveu à conversão cristã. É das poucas mesquitas medievais que ainda se leem em Portugal.

Os achados romanos, paleocristãos e islâmicos estão espalhados por vários núcleos museológicos pela vila — não há um edifício único, anda-se de um para o outro pelas ruas. Compre o bilhete conjunto à entrada se quiser ver tudo; poupa e evita pagar à porta de cada um.

O Alentejo que pouca gente vê

Estamos no Baixo Alentejo, perto da fronteira, numa zona de planície seca e horizontes largos. À volta de Mértola estende-se o Parque Natural do Vale do Guadiana, território de aves de rapina, de azinheiras e de um silêncio que custa a encontrar noutro lado. É terra de verões duríssimos — em julho e agosto o calor aperta a sério, e a vila esvazia-se às horas de sol. Vá fora dos meses mais quentes.

Há quem venha de propósito na primavera, quando os campos à volta se enchem de flor antes de a planície secar de novo. É o melhor momento, sem comparação.

Comer, e o que provar

A cozinha aqui é alentejana de raiz: pão, ervas, porco preto, açorda, ensopados, e os enchidos da zona. Sente-se numa tasca da vila, peça o prato do dia, e não espere pressa de ninguém. Depois desça outra vez até à margem ao fim da tarde — quando o sol se põe sobre o Guadiana e a vila inteira fica cor de mel, percebe-se por que é que tanta gente, ao longo de tantos séculos, decidiu ficar.