Aldeias Históricas de Portugal

Linhares da Beira: xisto, falcoaria e voo sobre a Estrela

Linhares da Beira: xisto, falcoaria e voo sobre a Estrela

Há vilas que se visitam e vilas que se sobrevoam. Linhares da Beira, encostada à vertente norte da Serra da Estrela, é das duas: lá em baixo, ruas medievais de granito sobem até um castelo de duas torres; lá em cima, parapentes giram em silêncio nas correntes de ar quente que sobem da planície da Beira. Poucos sítios em Portugal juntam tão bem o muito antigo e o muito leve.

A vila no chão

Linhares é uma das Aldeias Históricas de Portugal, e merece o título sem esforço. O casario de granito agarra-se à encosta, as ruas são estreitas e em declive, e o castelo, com as suas duas torres ameadas, domina tudo a partir de um afloramento rochoso. Subir até lá é o primeiro programa: do alto, vê-se o vale do Mondego a abrir-se e, em dias limpos, a serra inteira atrás.

Pelo meio há pormenores que recompensam quem anda devagar — um pelourinho, alpendres de pedra, uma antiga sinagoga, vestígios de uma comunidade judaica que aqui viveu. A igreja matriz guarda painéis atribuídos à escola de Grão Vasco, o grande mestre do centro de Portugal. Não é uma vila de monumentos espetaculares e isolados; é uma vila para se andar inteira, encosta acima e encosta abaixo.

Saltar da serra

O que pôs Linhares no mapa para muita gente foi o voo livre. A configuração da encosta, com a serra a aquecer e o ar a subir, faz da zona um dos pontos clássicos de parapente do país, e há escolas que oferecem voos de baptismo a dois. Mesmo que não voe, é um prazer simples sentar-se a vê-los descolar do alto e cruzar lentamente o céu sobre os telhados de xisto e granito.

A falcoaria é a outra ligação ao ar: a tradição de adestrar aves de rapina tem raízes antigas nesta região, e há demonstrações que a mantêm viva. É um daqueles encontros que não se planeiam mas que ficam.

Uma ressalva honesta: os voos dependem do vento, e há dias em que simplesmente não há condições. Não conte com isso como certeza — vá pela vila e trate o voo como bónus.

Quando ir

A primavera e o início do outono são as melhores alturas: dias amenos, encostas verdes ou douradas, boas condições de voo. No inverno, a Beira gela e a serra pode ter neve — bonito, mas duro. Não há comboio; vá de carro, e aproveite para encadear com Celorico da Beira (e o seu queijo da Serra) ou com a subida à Estrela. Em Linhares, prove o cabrito e o pão de centeio antes de seguir viagem.