Há um erro que quase toda a gente comete na Madeira em julho: aterrar no Funchal a pensar em praia. A ilha tem sol, tem mar morno na Calheta, mas o que a torna diferente das Canárias ou do Algarve é a água a correr pela montanha dentro. As levadas — aqueles canais de rega abertos à picareta a partir do século XVI para levar a água do norte chuvoso para os canaviais do sul — são hoje mais de 2.500 quilómetros de caminhos quase planos, à sombra do laurissilva. No pico do verão, quando o asfalto da capital ferve a 30 graus, lá em cima estão uns frescos 18 ou 20, com cheiro a urze e a terra húmida.
Porque é que o verão muda tudo nas levadas
O calor não chega à Madeira como chega ao continente. Raramente passa dos 28 graus à beira-mar, e a mil metros de altitude anda sempre dez abaixo disso. Isto significa que junho, julho e agosto são, ironicamente, a melhor altura para andar a pé pela ilha — o solo das levadas seca, o nevoeiro do inverno levanta e os túneis deixam de ser aquela armadilha escorregadia que são entre novembro e fevereiro. Quem já tentou a Levada do Caldeirão Verde em janeiro, com água a pingar do teto dos túneis e a lanterna a falhar, percebe a diferença logo no primeiro quilómetro.
Mas há um senão, e é grande: o sul da ilha entra em risco de incêndio a sério a partir de meados de julho, e a Câmara fecha trilhos sem aviso. Antes de calçar as botas, confirme o estado dos percursos no site oficial dos trilhos da Madeira (visitmadeira.pt) ou ligue para o posto de turismo na Avenida Arriaga. Em 2024 vários trilhos do leste estiveram fechados semanas seguidas. Vale a pena ter sempre um plano alternativo do lado norte, que é mais húmido e raramente encerra.
Três levadas para três tipos de dia
Para começar devagar: Levada dos Balcões
Se nunca andou numa levada, comece por esta. São apenas 1,5 quilómetros de ida, quase sem desnível, a partir do Ribeiro Frio — um carro de aluguer leva-o lá do Funchal em meia hora. No fim há um miradouro debruçado sobre o vale da Ribeira da Metade, com os tentilhões-da-madeira a comerem migalhas da mão. É de graça, faz-se com crianças e com avós, e em duas horas está de volta ao carro. Leve binóculos: vê-se o Pico Ruivo e o Pico do Areeiro ao fundo nos dias limpos.
Para o dia cheio: Levada do Caldeirão Verde
Esta é a imagem de postal da ilha, e com razão. Parte do Parque das Queimadas, em Santana, e segue 6,5 quilómetros (mais a volta, logo uns 13 no total) por dentro do coração do laurissilva, a floresta-relíquia classificada como Património Mundial desde 1999. Há quatro túneis escavados na rocha — leve lanterna de cabeça, mesmo no verão, porque lá dentro não há luz que valha. No fim, uma cascata despenha-se quase 100 metros para uma poça verde-escura. Conte cinco a seis horas com calma e leve almoço, porque não há nada para comprar a meio. A entrada no parque custa 3 euros por pessoa.
Para quem não tem medo do vazio: vereda do Areeiro ao Pico Ruivo
Esta já não é levada, é vereda de altitude — e é a caminhada mais espetacular da ilha. Liga os dois cumes mais altos da Madeira por uma crista estreita, com escadas talhadas na pedra e degraus que parecem suspensos no ar. São 7 quilómetros só de ida, com subidas que cortam as pernas, e é absolutamente desaconselhada a quem sofre de vertigens. A recompensa: ao nascer do sol, fica-se literalmente acima das nuvens, com o mar de nevoeiro a engolir os vales lá em baixo. Há quem peça táxi de madrugada (uns 40 euros do Funchal ao Areeiro) para apanhar a luz das seis da manhã. Não é exagero — é das coisas mais bonitas que se veem em Portugal.
O lado prático: dormir, comer, mover-se
O Funchal é a base óbvia, mas não a única. Se o objetivo são as levadas do norte, ficar uma ou duas noites em Santana sai mais barato e poupa duas horas de estrada por dia — uma casa rural simples ronda os 60 a 80 euros a noite em julho, contra os 120 e tal de um hotel decente na capital. O aluguer de carro é quase obrigatório fora dos trilhos servidos por autocarro; conte 35 a 50 euros por dia em época alta, e reserve com antecedência, porque a frota da ilha esgota em agosto.
Para comer depois da caminhada, esqueça os restaurantes da marina com fotografias nos menus. Procure uma casa de pasto onde sirvam espetada de carne em pau de loureiro, milho frito e uma poncha de maracujá feita na hora — em sítios como o Cantinho da Serra, em Santana, paga-se 12 a 15 euros por uma refeição que enche um lenhador. A poncha, atenção, é traiçoeira: sabe a sumo e derruba como aguardente, porque é exatamente isso que é.
Uma palavra sobre as botas. Vejo gente a tentar as levadas de ténis de corrida e a escorregar nas pedras molhadas dos túneis — não vale a pena arriscar um tornozelo a 13 quilómetros do carro. Botas com sola de borracha a sério, um impermeável fino na mochila mesmo com sol (o tempo na serra muda em minutos) e dois litros de água por pessoa. O resto é deixar-se levar pelo som da água a correr ao lado, que é, no fundo, a razão pela qual estas valas centenárias continuam a encher de gente todos os verões.