Açores

Ilha do Pico: o vinho que quase morreu duas vezes ainda nasce entre muros de lava negra

Ilha do Pico: o vinho que quase morreu duas vezes ainda nasce entre muros de lava negra

Ao amanhecer, o Lajido da Criação Velha parece um tabuleiro partido em milhares de peças. Cada quadrado tem o tamanho de uma sala pequena, murado por pedra vulcânica empilhada sem argamassa, e dentro de cada um crescem três ou quatro videiras deitadas quase ao nível do chão. Não há filas ordenadas como nas quintas do Douro, não há socalcos verdes a escorrer pela encosta. Há lava negra, silêncio e um cheiro a maresia que se cola à roupa em minutos. Quem chega à ilha do Pico à espera de uma paisagem vinícola convencional sai dali confuso — e é exatamente essa estranheza que levou a UNESCO a classificar o lugar como Património Mundial.

Esta não é uma vinha no sentido comum da palavra. É uma resposta de quinhentos anos a uma pergunta hostil: como plantar uva num campo de lava, à beira do Atlântico, sem terra fértil e com ventos que chegam a ultrapassar os 100 km/h no inverno? A resposta que os primeiros colonos encontraram ainda está de pé, muro a muro, entre Madalena e São Roque do Pico.

Uma paisagem que o mundo decidiu que vale a pena proteger

Em 2004, a UNESCO inscreveu a Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico na lista do Património Mundial, cobrindo 987 hectares ao longo da costa sudoeste da ilha. A classificação não protege um monumento isolado, mas um sistema inteiro: os muros de basalto, os caminhos de terra batida, as adegas, os moinhos, as casas de pedra e até os poços escavados na rocha. Os critérios usados pela organização — adaptação de uma prática agrícola a um território extremo e conservação de um exemplo já raro dessa mesma prática — resumem bem o que se vê no terreno. Os melhores exemplos deste desenho, segundo a própria candidatura, estão no Lajido da Criação Velha e no Lajido de Santa Luzia, dois núcleos onde a malha de currais permanece praticamente intacta desde o século XIX.

Currais, biscoitos e a lógica de sobreviver ao vento

O vocabulário local tem nomes próprios para cada peça deste puzzle. Os pequenos recintos rectangulares chamam-se currais — ou curraletas, consoante a zona da ilha — e servem para cortar o vento e a salsugem sem bloquear o sol que a uva precisa para amadurecer. As pedras negras e porosas onde a videira se apoia, quase rente ao chão, chamam-se biscoitos. Nos caminhos que atravessam o lajido ainda se veem as rilheiras, sulcos abertos na rocha pelas rodas dos carros de bois que transportavam os cachos e os barris, e junto à costa sobrevivem as rola-pipas, rampas talhadas na pedra onde os barris eram feitos rolar até aos botes que os levavam para o Faial.

Não há adjetivo que descreva bem o som do vento a bater nestas pedras negras.

A técnica de plantação chama-se cordão simples: a videira é conduzida quase horizontal, presa a poucos centímetros do biscoito, para que o calor acumulado na pedra durante o dia proteja os cachos à noite e o vento passe por cima sem os atingir em cheio. É o oposto do que se vê em quase todas as outras regiões vinícolas portuguesas, onde a vinha sobe em espaldeira ou trepa por socalcos. Aqui, quanto mais perto do chão, melhor — e é essa proximidade com a rocha que dá ao Verdelho do Pico o toque mineral que os enólogos gostam de destacar nas provas.

Nem tudo o que resta está em bom estado, e isso costuma escapar às fotografias que circulam nas redes. Uma parte dos currais, sobretudo os mais afastados das estradas principais e das zonas com produção ativa, perdeu-se sob giesta e silvado nas últimas décadas, à medida que o cultivo se concentrou nas áreas mais acessíveis. A classificação da UNESCO protege o desenho da paisagem, mas não garante, por si só, que cada muro continue a ser trabalhado — essa parte depende de quem ainda planta, poda e vindima à mão, curral a curral, porque nenhuma máquina entra ali.

Um vinho que quase desapareceu duas vezes

A viticultura chegou ao Pico no final do século XV, trazida por colonos portugueses entre os quais se contavam frades franciscanos e carmelitas, que perceberam no solo vulcânico algo que os continentais não tinham: uma rocha porosa capaz de reter calor durante o dia e libertá-lo à noite, protegendo a uva do frio atlântico. O negócio cresceu devagar durante três séculos até atingir o auge no XIX, quando o Verdelho do Pico chegava às mesas de cortes europeias — a corte russa incluída — e era exportado com regularidade para o Brasil. Depois veio a queda, rápida e dupla: o oídio destruiu grande parte das vinhas a partir de 1852, e a filoxera completou o desastre décadas mais tarde. Muitos produtores abandonaram a ilha ou trocaram a vinha por outras culturas, e durante quase um século o Verdelho do Pico foi mais lenda de museu do que realidade de garrafa.

O Museu do Vinho, em Madalena, conta essa história de dentro de um edifício que já pertenceu ao Convento do Carmo, construção dos séculos XVII e XVIII que servia de casa de veraneio aos frades carmelitas sediados na Horta. As salas guardam prensas, tonéis e documentos da fase áurea das exportações — e explicam, sem grande cerimónia, como uma casta quase se perdeu por completo antes de alguém decidir que valia a pena recuperá-la no século XX.

As castas que sobreviveram

Hoje o Verdelho representa cerca de 80% do vinho produzido na ilha, mas não está sozinho. O Arinto dos Açores, apesar do nome parecido com o Arinto do continente, é uma casta distinta e nativa do arquipélago, com aromas a maçã verde e flor branca. A Terrantez do Pico é a mais rara das três: chegou perto da extinção por ser difícil de cultivar e pouco produtiva, e continua a ser a casta mais cara do país, com o quilo de uva a atingir os quatro euros em anos de boa procura. A Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico, fundada entre 1949 e 1950 e hoje conhecida no mercado como Pico Wines, recebe anualmente cerca de 240 toneladas de uva de cerca de 240 sócios — perto de 60% de tudo o que se planta na ilha — e gere quinze vinhos diferentes, do branco seco ao licoroso que ainda lembra os tempos da exportação para a Rússia.

Melhor opção para quem quer perceber a diferença entre as três castas sem comprar quinze garrafas: pedir uma prova comparativa numa das adegas de Madalena ou de Santa Luzia antes de decidir o que leva para casa. Não vale a pena limitar-se ao Verdelho só porque é o mais fácil de encontrar nos supermercados de Lisboa — a Terrantez, quando se encontra, justifica sozinha a viagem.

A montanha por cima de tudo

Quem sobe a Montanha do Pico olha para este desenho de muros lá de cima, a 2.351 metros de altitude — o ponto mais alto de Portugal. O trilho oficial parte da Casa da Montanha, a 1.230 metros, e soma 7.600 metros até ao topo, com cerca de 1.100 metros de subida acumulada e um tempo médio de oito horas para ida e volta. No cume abre-se a cratera principal, com cerca de 700 metros de perímetro e 30 metros de profundidade, e dentro dela ergue-se o Piquinho, um cone menor de cerca de 70 metros que ainda liberta fumarolas em dias de vento fraco. O acesso ao Piquinho é limitado a trinta pessoas em simultâneo, e ninguém pode ficar no topo mais de vinte minutos — uma regra que soa excessiva até se perceber o efeito de trezentas pessoas por dia a pisar a mesma rocha frágil.

Quando ir sem cruzar caminho com os cruzeiros

Entre junho e agosto, os navios de cruzeiro que atracam na Horta despejam grupos organizados que atravessam de ferry para uma visita relâmpago às vinhas, normalmente entre as dez da manhã e as duas da tarde. Fora dessa janela, o lajido volta a ficar vazio — e é nessas horas, ao início da manhã ou já ao fim da tarde, que a paisagem mostra o que realmente é: um território de trabalho, não um cenário para fotografia. Setembro costuma ser o mês mais interessante para quem gosta de perceber a lógica do lugar, porque coincide com a vindima e os pequenos produtores andam nos currais a cortar cacho a cacho, agachados, sem qualquer máquina à vista. No inverno, pelo contrário, a ilha fecha-se sobre si mesma: o vento sobe de intensidade, vários acessos à Montanha do Pico ficam encerrados por segurança e a paisagem ganha um tom cinzento que poucos turistas chegam a ver — o que, para quem procura precisamente essa aspereza, pode ser a melhor altura de todas.

Como chegar

A forma mais simples de chegar à ilha a partir do Faial é o ferry entre Horta e Madalena, operado pela Atlanticoline, com travessia de cerca de 25 minutos ao longo de cinco milhas náuticas — na prática, menos tempo do que leva a atravessar Lisboa em hora de ponta. Nos meses de verão os horários multiplicam-se; fora da época alta, vale a pena confirmar o último regresso antes de sair para as vinhas, porque a ilha não tem vida noturna que compense perder o barco. Fica o essencial: quem procura vinho em garrafa vai a Madalena, mas quem quer entender o que está a beber caminha primeiro entre os currais, com o vento a bater na pedra negra e o Atlântico a poucos metros de distância.