Aldeias Históricas de Portugal

Idanha-a-Velha: a aldeia que já foi cidade romana

Idanha-a-Velha: a aldeia que já foi cidade romana

São umas duas dúzias de habitantes a viver no meio das ruínas de uma cidade que teve milhares. Idanha-a-Velha, perdida nos campos planos a sul da Serra da Gardunha, é talvez o sítio mais desconcertante da Beira Baixa: uma aldeia minúscula que cabe inteira dentro daquilo que foi Egitânia, a urbe romana com muralha, ponte e basílica. Caminha-se por entre pedras de dois mil anos como quem atravessa o quintal de casa.

Camadas em cima de camadas

O fascínio de Idanha está em ver tudo sobreposto. Os romanos fundaram aqui Egitânia; os visigodos transformaram-na em sede de bispado e ergueram uma catedral; os muçulmanos passaram por cá; e os cristãos do norte voltaram a habitá-la. A chamada Sé-Catedral, um edifício despojado e poderoso, guarda no seu interior lápides funerárias romanas reaproveitadas como material de construção — repare nas inscrições latinas viradas ao contrário, encaixadas nas paredes sem cerimónia. É história reciclada à vista de todos.

Lá fora, a muralha romana ainda desenha o perímetro, e a ponte sobre o rio Ponsul, de origem romana embora muito remendada, continua a fazer travessia. Há um lagar de varas dentro de um celeiro, um padrão epigráfico, uma torre dos templários encaixada na muralha. Nada está espalhafatoso nem cercado por bilheteiras de cidade grande — anda-se livremente, e essa intimidade com a ruína é precisamente o que torna o lugar especial.

Uma dica prática: o Centro de Acolhimento da aldeia organiza visitas guiadas, e vale muito a pena. Sem alguém a explicar, metade das camadas passa despercebida; com guia, cada pedra ganha uma história.

Os campos da Idanha à volta

Idanha-a-Velha faz parte de uma das maiores zonas de cereal do interior, e a paisagem em redor é de planura ondulante, com sobreiros e azinheiras dispersos — o montado da Beira Baixa. Em janeiro está tudo seco e ocre, com um frio cortante de manhã; na primavera fica verde e cheio de cegonhas, que aliás nidificam por toda a aldeia, em cima das ruínas. É um espetáculo gratuito que ninguém anuncia.

Não confunda com Idanha-a-Nova, que é a sede de concelho moderna a poucos quilómetros. A velha é a das pedras.

Como organizar a visita

Não há transportes públicos úteis até aqui, portanto vá de carro. Combine Idanha-a-Velha com Monsanto, que fica perto e completa o contraste: uma entre penedos no alto, a outra esparramada na planície. Reserve pelo menos meia manhã e leve água — não há grande comércio na aldeia, e o café pode estar fechado fora de época. Se for em pleno verão, vá cedo: a planície da Beira ferve ao meio-dia e a sombra escasseia entre as ruínas.