Há uns dias do fim do inverno em que Trás-os-Montes engana o calendário. O frio ainda morde de manhã, mas os vales do Douro e do Côa enchem-se de branco e rosa: são as amendoeiras a florir, antes de qualquer outra árvore acordar. Dura pouco — duas, três semanas — e basta uma chuvada forte para deitar as pétalas ao chão.
A lenda da princesa do norte
Conta-se em Trás-os-Montes que um rei mouro casou com uma princesa do norte da Europa, que adoecia de saudades da neve. Para a consolar, mandou plantar amendoeiras por todo o lado; quando floriram, os campos brancos pareceram-lhe a neve que tinha perdido. É só uma lenda, mas explica bem porque é que, todos os anos, gente de todo o país sobe ao Douro Superior nesta altura. As amêndoas, essas, entraram mesmo na doçaria da região e da fronteira.
Onde e quando ver
A floração depende do tempo de cada ano, mas costuma rondar de meados de fevereiro a meados de março, mais cedo nas zonas baixas e mais quentes. Os melhores cenários são o Douro Internacional, na zona de Miranda do Douro, Mogadouro e Freixo de Espada à Cinta, e os arredores de Torre de Moncorvo, onde a tradição da amêndoa é mais forte. O vale do Côa, em Foz Côa, junta a flor à arte rupestre — pode ver-se de manhã as gravuras e de tarde os pomares.
- Para vistas de cima, suba aos miradouros sobre o Douro Internacional; os campos brancos a perder de vista valem a subida.
- Em Torre de Moncorvo realizam-se festas dedicadas à amendoeira em flor por esta época, com mercados de produtos locais — confirme as datas do ano em causa, que mudam.
- Leve roupa quente apesar do sol; a estas altitudes o ar continua a ser de inverno.
Como aproveitar sem desilusão
A grande armadilha é marcar a viagem com semanas de antecedência e chegar tarde ou cedo demais. A floração não espera por ninguém. Se puder, deixe a decisão para a última semana e siga o que dizem quem está no terreno — os postos de turismo de Moncorvo e de Foz Côa sabem como estão os pomares naquele dia. E se apanhar nevoeiro, que no Douro Superior é frequente de manhã, não desespere: muitas vezes levanta perto do meio-dia e a flor aparece com o sol a contraluz, ainda mais bonita.
Vá de carro, porque os melhores pomares ficam em estradas secundárias longe de qualquer estação. Combine com uma noite numa casa rural da zona e prove a doçaria de amêndoa — os bolos de Moncorvo, em especial. Uma sugestão final, contra a corrente: salte a fotografia de massas no miradouro mais conhecido e meta-se por uma estrada de terra entre dois pomares. É aí, com a árvore a um palmo da cara e o cheiro a entrar, que se percebe a coisa.