Há um marco de granito em Chaves, no norte transmontano, onde começa uma fita de alcatrão que só termina centenas de quilómetros a sul, em Faro, à beira da Ria Formosa. Pelo meio, a Estrada Nacional 2 atravessa o país inteiro de lés a lés, sem nunca tocar numa autoestrada. É a única estrada portuguesa que faz essa travessia completa, e percorrê-la é a antítese da viagem rápida.
O que é, ao certo
A EN2 nasceu no plano rodoviário dos anos 40 e liga Chaves a Faro ao longo de cerca de 738 quilómetros — número que aparece nas placas e nos diplomas de quem a faz inteira. Atravessa três regiões de relevo e cultura muito distintas: Trás-os-Montes e o Douro a norte, a Beira e o centro serrano no meio, o Alentejo e o Algarve a sul. Costuma comparar-se à Route 66 americana, mas a EN2 não precisa do mito de empréstimo — tem montanha, vinha, planície e mar próprios.
A graça está em não ter pressa. A estrada serpenteia, sobe a serras, mergulha em vales, atravessa o coração de vilas que a autoestrada deixou de lado. Passa-se por Vila Real, pela região do Douro, por Sernancelhe e Vila Nova de Foz Côa, por Sertã e pela Serra da Lousã, por Abrantes, por Montemor-o-Novo e pelo Alentejo profundo, até à descida final para o Algarve. Quem corre, não a vê; quem pára em cada vila, percebe-a.
Como organizar a travessia
Faça-a de norte para sul, terminando no mar — psicologicamente recompensa. Reserve pelo menos quatro a cinco dias se quiser parar a sério; em menos do que isso, é só conduzir. Durma em vilas pelo caminho e coma o que cada região tem de melhor: posta à transmontana no norte, queijo da Serra e cabrito no centro, ensopados e migas no Alentejo.
Há associações e percursos sinalizados que ajudam a seguir o traçado original, porque em alguns troços a estrada foi requalificada e perde-se a numeração — leve um mapa ou uma aplicação fiável, porque a EN2 desaparece e reaparece em variantes.
Uma advertência prática: no inverno, os troços de serra a norte podem ter gelo e nevoeiro, e o dia é curto. A primavera e o outono são as melhores estações — temperaturas amenas, paisagens em flor ou douradas, e luz suficiente para conduzir devagar.
Para quem não tem dias a fio
Se não puder fazer os 738 quilómetros, escolha um troço. O percurso entre o Douro e a Beira, com os miradouros sobre o rio e as aldeias de granito, é talvez o mais bonito e dá-se bem num fim de semana. A travessia do Alentejo, mais lenta e mais vazia, é para quem gosta de horizontes sem fim.