O rio faz fronteira e cava-a a pique. No Douro Internacional, durante quase duzentos quilómetros, o Douro e o seu afluente Águeda separam Portugal de Espanha no fundo de gargantas profundas, com paredes de granito a cair direitas para a água. Lá no alto, no planalto frio de Miranda, o vento corta e fala-se uma língua que não é o português. É o canto mais esquecido de Trás-os-Montes, e talvez por isso o mais selvagem.
As arribas e as aves
As arribas são o que mais marca esta paisagem — falésias de centenas de metros que mergulham no rio fronteiriço, protegidas pelo Parque Natural do Douro Internacional. Nestes paredões nidificam algumas das maiores aves de rapina da Europa: o grifo, com a sua envergadura enorme, plana nas correntes de ar ao longo das gargantas; há também britangos e até a rara cegonha-preta. Os miradouros sobre o desfiladeiro — como o de São João das Arribas ou o de Penedo Durão — são dos melhores postos de observação de aves do país.
A melhor maneira de sentir a escala das arribas é descer ao rio. Há passeios de barco a partir de Miranda do Douro que entram pelo desfiladeiro adentro, com as paredes a fechar-se de ambos os lados e os grifos a cruzar o céu lá em cima. É uma perspetiva que do alto não se tem.
Miranda e o mirandês
Miranda do Douro é a porta de entrada e uma cidade pequena com história grande. Foi sede de bispado, tem uma catedral imponente para o tamanho do lugar, e guarda na sé o Menino Jesus da Cartolinha, uma figura vestida que é motivo de devoção curiosa. Mas o que distingue Miranda do resto do país é a língua: o mirandês, segunda língua oficial de Portugal, ainda se fala nas aldeias do planalto — uma língua própria, com raiz no asturo-leonês, não um dialeto do português.
Por aqui sobrevivem também os pauliteiros, dançarinos que batem paus ao som da gaita-de-foles em festas e romarias. Não é encenação para turista; é tradição viva da terra fria transmontana.
Prove a posta mirandesa, um naco grosso de carne de raça mirandesa grelhado na brasa. No planalto, no inverno, vai precisar — o frio aqui é dos mais duros do país.
Quando ir e o que esperar
A primavera é a melhor época para as aves, quando os grifos estão mais ativos e o planalto verdeja. O inverno é cru e o verão pode ser tórrido no fundo das gargantas. Vá de carro, porque os transportes públicos até Miranda são escassos e lentos. Reserve o passeio de barco com antecedência fora de época, que os horários reduzem. E uma franqueza: as estradas do planalto são longas e vazias — encha o depósito antes de se embrenhar.