O barulho da pele do leitão a estalar quando o garfo a fura é, para muita gente, o som de domingo em Portugal. A Bairrada vive disto e de uma coisa que os portugueses ainda subvalorizam: faz aqui alguns dos melhores espumantes do país, pelo método clássico, garrafa a garrafa, à porta de Coimbra e do Porto.
O leitão é a estrela, mas há mais
A Mealhada é a meca do leitão da Bairrada — assado em forno de lenha, com a pele estaladiça e a carne suculenta, servido com a pimenta característica e batata frita. Há restaurantes na estrada nacional que vivem disto há gerações. Conselho prático: vá fora das horas de ponta do almoço de domingo, ou arrisca-se a esperar, porque a fama trouxe filas. E peça meio leitão para duas pessoas — uma dose inteira derrota qualquer um.
O espumante que merece mais respeito
A Bairrada faz espumante pelo método clássico — o mesmo da região de Champagne, com segunda fermentação na própria garrafa — desde o século XIX. A casta baga, tinta e de muita acidez, é a base, embora hoje se usem também castas brancas. Várias adegas históricas em Anadia, e a tradicional zona de Sangalhos, abrem-se a visitas e provas, muitas vezes sem o aparato turístico do Douro. Vai encontrar produtores que o recebem quase em casa, sem bilheteira, a explicar o dégorgement à mão.
É vinho a sério, e quase sempre mais barato do que merecia ser.
O que fazer entre provas
A paisagem é suave, de vinha e pinhal, fácil de percorrer de carro entre a Mealhada, Anadia, Cantanhede e Oliveira do Bairro. O Buçaco fica logo ali — a mata nacional com o palácio neo-manuelino transformado em hotel, um daqueles sítios que se visita só pela floresta de cedros e sequoias. Combine uma manhã no Buçaco com almoço de leitão e tarde de adega, e tem um dia cheio sem fazer mais de meia hora de estrada entre paragens.
Para acertar na visita
- Marque as provas nas adegas com antecedência; muitas são pequenas e não recebem sem aviso.
- Se conduz, cuspa nas provas — soa mal, mas é o que fazem os profissionais, e a estrada agradece.
- Compre o espumante diretamente ao produtor: leva-o mais fresco e a preço de adega.
No fim do dia, com uma garrafa de baga espumante na bagageira e o cheiro a leitão ainda na roupa, percebe-se porque é que a Bairrada não precisa de se armar em Douro. Tem mesa, tem vinha e tem bolhas — e ainda quase ninguém a descobriu.