Em fevereiro, os palheiros às riscas da Costa Nova ficam para nós. Não há filas para a fotografia, o vento corta, e o café que no verão demora vinte minutos a chegar à mesa aparece quente em cinco. É assim que prefiro Aveiro: lavada, silenciosa, com os moliceiros parados nos canais como se esperassem por melhor companhia.
A cidade dos canais sem o aperto
Aveiro chama-se "a Veneza portuguesa" por causa dos canais, e é uma comparação que se gasta depressa quando lá se está. O Canal Central corta o centro, os moliceiros pintados — outrora barcos de trabalho que apanhavam o moliço, as algas usadas para adubar os campos — deslizam com turistas, e a Arte Nova deixou a cidade salpicada de fachadas azulejadas que valem um passeio devagar de cabeça levantada. Fora da época alta, faz-se o circuito de barco quase sem espera e percorre-se a pé o bairro da Beira-Mar, o velho bairro dos pescadores, onde as casas baixas se encostam umas às outras junto à água.
A meio da manhã, pare numa pastelaria e peça ovos-moles. São a doçaria de Aveiro: gema de ovo com açúcar dentro de uma hóstia fina, muitas vezes moldada em forma de búzio ou de peixe, herança dos conventos. Comê-los à beira-canal, com o frio a entrar pela gola, é melhor programa do que parece.
Costa Nova e o Atlântico cru
A uns quilómetros, do outro lado da ria, fica a Costa Nova com os seus palheiros — casas de madeira pintadas a riscas largas, vermelhas, azuis, verdes, originalmente abrigos de pescadores e de redes. No verão é uma romaria; em dezembro ou fevereiro tem-se a marginal quase deserta, o mar grande a bater no areal e o cheiro a maresia sem a multidão. Atravessa-se para lá pela ponte da Barra ou dá-se a volta pela ria; de qualquer modo, leve casaco a sério, porque o vento da barra não perdoa.
E se chover? Pois é, em pleno inverno chove e o vento dobra os guarda-chuvas. A vantagem é que a Costa Nova com chuvada e mar bravo tem um drama que o sol de agosto não dá — e a seguir refugia-se num restaurante de peixe da zona, onde a caldeirada e o arroz de marisco sabem ao que devem saber.
Como organizar o dia
Aveiro tem estação na Linha do Norte e fica a pouco mais de uma hora de comboio do Porto, o que a torna um bate-volta fácil sem carro. Da estação ao centro vai-se a pé. Para a Costa Nova e para a praia da Barra há autocarro urbano; ao fim de semana de inverno convém confirmar horários, que rareiam.
Conselho directo: comece pelos canais de manhã, almoce peixe na Costa Nova e guarde o regresso para a hora a que o sol, se houver, baixa sobre a ria e acende os azulejos da estação antiga. É um daqueles fins de tarde que ninguém combina e toda a gente fotografa.