A duas horas de carro de Roma, mas num outro planeta, começa a Itália que ninguém põe nos cartazes. O Abruzzo é montanha a perder de vista, aldeias de pedra agarradas a encostas, planaltos onde pastam rebanhos — e os últimos ursos-pardos marsicanos e alcateias de lobos da península itálica. É um dos cantos mais verdes e mais vazios do país, e é precisamente por isso que vale a pena.
Três parques e o Gran Sasso
A região vive em torno dos seus parques. O Parque Nacional dos Abruzzos, Lácio e Molise é o mais antigo, criado em 1923, e é ali que vivem os ursos — vê-los é raro, mas os trilhos por entre faias centenárias são magníficos de qualquer modo. Mais a norte, o maciço do Gran Sasso ergue-se até quase aos três mil metros, com o planalto de Campo Imperatore, um descampado de altitude que faz lembrar uma estepe asiática e onde se filmaram westerns. No inverno há neve e esqui; no verão, gentiana a florir e gado solto.
Aldeias que quase morreram
Santo Stefano di Sessanio, em pedra cor de mel, ficou meio abandonada e renasceu como aldeia-hotel difusa, com quartos espalhados pelas casas antigas. Rocca Calascio, mesmo ao lado, tem um castelo no topo de uma crista a 1460 metros — uma das fortalezas mais altas de Itália, com vistas que se estendem por toda a montanha. A subida a pé desde a aldeia é curta mas íngreme; faça-a ao nascer ou ao pôr-do-sol.
À mesa
O Abruzzo come a sério e barato. Os arrosticini — espetadas pequenas de borrego grelhadas no carvão — são o prato de assinatura, comem-se aos molhos com as mãos. O queijo pecorino, o açafrão de Navelli (dos melhores do mundo) e o vinho Montepulciano d'Abruzzo completam a refeição.
Honestamente, o transporte público aqui é fraco e as aldeias ficam longe umas das outras — sem carro não vá. E em pleno inverno muitas estradas de montanha fecham. Mas para quem quer caminhar, comer bem e não ver mais ninguém nos trilhos, é difícil bater este sítio em toda a Itália.